domingo, 2 de janeiro de 2011

Razão, Paixão e Anarquismo*


    Em primeiro lugar, algumas definições sobre o que é ANARQUISMO. É necessário clarear alguns conceitos como anarquia, poder, governo e socialismo. Anarquia significa ausência de poder ou de autoridade constituída. Há uma diferença sutil no discurso, mas importante na realidade, entre poder político e poder social. O primeiro exerce o poder de coação: uma ou mais pessoas têm o poder de obrigar outras a fazer o que não desejam. Ocupam os governos do Estado, o KRATOS, o poder político no sentido grego, qualquer que seja a sua forma, teocracia, aristocracia, monarquia, oligarquia, democracia, em todas as suas instâncias. É contra este poder hipertrofiado nos Estados Nacionais modernos que os anarquistas lutam hoje. Os anarquistas sabem e todos os estudos históricos o demonstram que o exercício deste poder sempre corrompe seus detentores, que acabam exercendo-o em benefício próprio, de uma forma ou de outra, em diferentes graus, sempre em detrimento do povo.
    O outro poder, o poder social, é participado, exercido por todos nas decisões coletivas: o poder de uma assembléia de tomar decisões. Exemplo de proporções enormes foi o poder que tinha a CNT espanhola, com milhões de afiliados, durante a Guerra Civil, de decidir pela organização autogestionária e pelas experiências práticas do anarquismo durante a revolução. É o poder que é exercido por todos em qualquer prática autogestionária, nas decisões realmente coletivas.
    O termo Governo tem o sentido de autoridade diretora e o sentido restrito é o de governo político, centralizador do KRATOS social. Mas, por extensão, tem o sentido de gestão, organização, ordenamento. A expressão “desgoverno” (avião ou carro desgovernado) tem o sentido de desorganização e é análoga ao sentido pejorativo de anarquia. A proposta anarquista é pela organização e, neste sentido, pelo autogoverno, como sinônimo de autogestão.
    Não há expressão mais aviltada do que o termo SOCIALISMO. Assim como para a imensa maioria das pessoas é inconcebível as sociedades humanas se organizarem sem Estado, tal a desinformação, para a maioria das pessoas, socialismo passou a ser sinônimo de estatização. Intelectuais das mais variadas tendências, nas universidades, na imprensa escrita e em todos os meios de comunicação repetem a mesma pregação. Tudo o que se refere a socialismo passa pelo Estado.
    Quando dizemos que o anarquismo é antes de tudo sinônimo de socialismo, temos que dar um mínimo de clareza ao nosso conceito de socialismo: daí a expressão socialismo libertário. Socializar é tomar a propriedade e os instrumentos de trabalho, enfim toda a riqueza e o que a produz, disponível à sociedade, acabando com a exploração do homem sobre o homem. Mas, para o socialismo libertário, não basta socializar os bens materiais: é preciso socializar o saber, a informação e todos os bens culturais. Mas, o que é fundamental, jamais haverá socialismo se não fizer a socialização do poder – a primeira coisa a ser socializada é o poder, que começa com a autogestão das lutas. Destruir o poder político e fortalecer o poder social, eis o que significa autogestão, a real igualdade e liberdade em todo o processo de transformação.
    O anarquismo não é uma doutrina rígida, com artigos de fé, tábuas da lei, com profetas, com excomunhões, processos de heresia e sanções. É antes um conjunto de doutrinas e princípios cujos postulados básicos são convergentes, e que está sempre aberto a novas contribuições. Estes postulados básicos formam um fundo comum que, no amplo universo das múltiplas e alternativas atividades libertárias, são o anarquismo propriamente dito.
    O sentido de justiça e equidade, a revolta contra a exploração econômica do homem pelo homem e o combate ao Estado – com a consciência plena de que é a instituição que garante o regime de exploração e privilégio como fonte geradora de opressão e violência sobre o indivíduo e a coletividade – têm a liberdade como um dos mais altos valores humanos; liberdade e autonomia plenas a partir do indivíduo para a associação livre fundada na solidariedade e no apóio mútuo.
    O anarquismo combate todas as formas de autoritarismo, combate todo o poder de coação, tudo o que restringe, limita, sufoca e asfixia o potencial criativo do ser humano.
    Todo o ser humano tem a necessidade de desenvolver seu físico e sua mente em graus e formas indeterminadas; todo o ser humano tem o direito de satisfazer livremente essa necessidade de desenvolvimento; todos os seres humanos podem satisfazer essas necessidades por meio da cooperação e da vida associativa voluntariamente aceita. Cada indivíduo nasce com determinadas condições de desenvolvimento. Pelo fato de nascer com aquelas condições tem necessidades – em termos políticos, tem o direito – de se desenvolver livremente. Sejam quais forem suas condições, ele terá a tendência de se expandir integralmente. Ele terá o desejo de conhecer, saber, exercitar-se, gozar, sentir, pensar e agir com inteira liberdade. Esta necessidade é inerente ao próprio ser. Se o crescimento físico fosse limitado por qualquer meio artificial, tal fato seria qualificado de monstruoso. Também a limitação do desenvolvimento de sua sensibilidade, do seu desenvolvimento intelectual, moral e afetivo, anulando o seu potencial criativo seria lógico considerar-se uma monstruosidade. No capitalismo esse absurdo se dá em todas as instâncias da vida social e ninguém considera isso um absurdo, somente os anarquistas.
A descentralização, a autonomia e o federalismo são as vias pelas quais o anarquismo propõe a construção de uma nova sociedade. A descentralização máxima é o indivíduo. Da plena liberdade e autonomia individuais para a organização segundo os interesses e as necessidades, para as instâncias mais complexas até a completa malha social, os princípios não se alteram. Começando pelo indivíduo como unidade celular da sociedade até o mais amplo tecido social, o princípio da autonomia está presente. Os interesses comuns de diferentes níveis e setores – profissionais, de produção de bens, planejamento, geográficos[1], etc. – resolvem-se pelas federações que as necessidades práticas indicarão. A união de interesses com objetivos comuns, sem quebra de autonomia, é a característica básica do federalismo. Assim, as uniões locais de organizam em nacionais até confederações internacionais.
    Em todos os atos, ante todos os fatos, o ser humano analisa, estima, aceita ou repudia o que se dá, o que acontece, formulando um juízo de valor. O tema é vastíssimo e seu estudo pertence à ontologia[2]. Apenas alguns conceitos para nos situarmos enquanto anarquistas. As vias de nosso conhecimento são a sensibilidade, a intelectualidade e a afetividade. Temos portanto uma intuição sensível, uma intuição intelectual e uma intuição páthica (do grego afeto, paixão). Há uma interatuação entre elas. Podemos racionalizar um sentimento de simpatia ou de antipatia[3], como podemos, através de uma dedução lógica, provocar a nossa santa fúria.
    Quase todos colocam os valores numa escala hierárquica: uns num grau mais elevado que outros[4]. O filósofo alemão MAX SCHELER (1874-1928) apresenta a seguinte ordem, que não é aceita por todos:

Valores religiosos (santo e profano)

Valores éticos (justo e injusto)

Valores estéticos (belo e feio)

Valores lógicos (verdade e falsidade)

Valores vitais (forte e fraco)

Valores utilitários (conveniente e inconveniente)

    Há variáveis, na subordinação dos valores, que se refletem de pessoa para pessoa ou até na mesma pessoa conforme o momento, mas sempre, na maioria das circunstâncias que a vida oferece, um prevalece sobre os outros[5]. Para o anarquista todos os valores se subordinam aos valores éticos, porque todos os atos humanos são passíveis de juízo ético.
    O que é ser anarquista? Ser anarquista é antes de tudo uma atitude ética. Ante a iniqüidade, um ímpeto de justiça leva o anarquista a romper racional e afetivamente com o sistema vigente. Romper com a autoridade é afirmar a própria independência humana. Ser anarquista é procurar realizar no quotidiano a plenitude do ato humano, e o ato humano só o é quando livre, fundado na vontade, no conhecimento dos fins e no poder de realizá-lo. Contra toda a desmoralização do ato humano, a luta anarquista não tem limites. Ser anarquista não tem limite. Ser anarquista é lutar pela liberdade de todos, tendo a consciência de que a liberdade dos outros aumenta a minha própria e não a limita.
   As paixões humanas [6] sempre foram objeto de estudo dos anarquistas. Apenas para ilustrar, vamos citar as teses apresentadas no 2°. Certâmen Socialista, realizado no dia 10 de novembro de 1889 no palácio de Belas Artes de Barcelona.
   Proposta do Círculo Operário de Barcelona: “Suponho uma sociedade verdadeiramente livre ou anarquista e sendo a instrução elevada ao grau máximo concebível, podem ser causas de desarmonia social as chamadas paixões humanas?” Foram apresentados seis trabalhos escritos sobre tal questão. No primeiro, apresentado por Teobaldo Nieva, é destacado o papel das paixões no desenvolvimento físico e mental da humanidade e como as religiões, as correntes filosóficas, os poderes político e econômico têm sufocado esta energia criadora. O autor se estende na crítica às religiões, a todas as formas autoritárias e repressivas e conclui que, apesar de tudo, elas continuam a ser a seiva vivificante da vida. As paixões são definidas e, ao contrário dos pecados capitais que são sete (orgulho, avareza, luxúria, etc.), as paixões são infinitas: o amor sexual, a paixão pelo belo, pela arte, pelo bem comum, etc. E, na sua essência, as paixões são benéficas, libertam. O desequilíbrio e as injustiças que o capitalismo e o autoritarismo provocam são as causas dos desvios e das práticas viciosas.
    Proposta do Centro de Amigos de Reus: “Benefícios ou prejuízos que a humanidade obteria adotando o amor livre”. Foram apresentados dois trabalhos, o primeiro de Soledad Gustavo. O trabalho começa acrescentando ao título a expressão “Em Plena Anarquia”. A autora considera que o amor livre na atual sociedade seria desastroso, uma desmoralização. Seria irrealizável. Uma sociedade plenamente livre e igualitária, perfeitamente justa teria como base de todas as liberdades a união livre dos sexos. Considera que só a comunidade assumindo a subsistência das mulheres e crianças resolveria o problema da dissolução das uniões. Só uma sociedade anarquista possibilitaria a escolha livre. Para a autora, a maioria considera o amor livre uma variedade de prazeres sensuais. Pura ignorância do que significa liberdade [7].
    Já Anselmo Lorenzo, em seu trabalho, faz uma incursão nas civilizações antigas rasteando as diferentes formas e costumes que envolvem a união dos sexos. Desde povos que viviam na mais absoluta promiscuidade, aos que adotaram a poligamia e a poliandria, até a monogamia e os padrões que regem o casamento na atual sociedade, para concluir que não se tem direito algum de afirmar que o conceito atual de casamento e família seja original, legítimo e unicamente natural. Havendo liberdade e igualdade os indivíduos e a sociedade se organizarão e praticarão a forma que mais lhes convier.
    A expressão amor livre, hoje eivada de conotações pejorativas, se confunde com a amizade colorida dos anos 70, por isso preferimos a expressão amor libertário [8]. Simplesmente a união de dois seres que se amam, sem injunção de espécie alguma. Sem interferência do Estado, da Igreja, da família, dos fatores econômicos, etc. sem preconceitos de espécie alguma. O amor sexual é como uma florescência da vida [9]. Suas práticas são tão diversas, tão diferentes seus graus de desenvolvimento, como imenso é o campo da afetividade. Impossível reduzir o amor a uma definição concreta. Impossível determiná-lo por condições particulares fixas. Nada mais variável. O amor sexual se apresenta sempre impregnado do sabor particular de cada associação humana; sujeito a normas, formalismos e rituais que variam com o organismo social. O amor sexual desprovido de ritualismos ridículos, fórmulas jurídicas, só será possível quando a sociedade tiver superado as contradições que a impedem de resolver os problemas que afetam as necessidades básicas das pessoas.
    A história do movimento anarquista é pontilhada de extremos de paixão e lucidez [10], de amor e de heroísmo, que seria impossível registrá-los todos aqui.
    Há no ser humano um desejo inerente de ir além, de ter uma vida diferente da que vive. Há assim um ímpeto utópico. O desejo de alcançar uma realidade que ainda não existe. Há as utopias de evasão, que expressam um desejo de afastamento da realidade vivida, que denominamos fuga da realidade, e há utopias de superação, que condensam desejos de alcançar estágios superiores ainda não vividos. Para que o homem alcance uma superação constante de si mesmo (o que seria a efetivação de uma revolução permanente não só em si, como também em seu meio) é necessária uma dose de utopia, porque sem o desejo de tornar tópicos os valores mais altos é impossível estimular a criação [11]. Os que julgam que o ímpeto utópico é uma fraqueza, resultado de uma deficiência humana, pouco sabem de psicologia.
    É preciso muito sonho, muito desejo, muita crença nas possibilidades de cada um e na de todos para que possamos superar obstáculos, vencer dificuldades, construir possibilidades remotas, tornar em ato o que parecia um sonho impossível.
    A história do anarquismo é, como dissemos, partilhada por estes atos de lucidez, paixão, heroísmo e amor que sempre foram e serão muito gratificantes para os que viveram tais momentos de plenitude libertária.

Jaime Cubero( 1926- 1998), anarquista brasileiro.

Notas:

*Originalmente publicado na Revista “Libertárias”, São Paulo, nº4, Dez, p.64-68, 1998. Republicado em Eidos info-zine, Patos de Minas, nº26, Out, 2010.Disponível em:http://wwweidosinfozine.blogspot.com/2010/10/eidos-info-zine-262.html.Este artigo corresponde, em parte, a palestra proferida por Jaime Cubero na Universidade Federal de Uberlândia, em 01/12/1994, durante a inauguração do Nephispo (Núcleo de Estudos e Pesquisas em História Política), coordenado, na época, pelas professoras Christina Roquette Lopreato e Jacy Alves de Seixas. Os originais deste artigo foram preparados por José Orsi Carlos Morel.

[1] Que vão desde o espaço físico das comunidades até a ecologia de grandes regiões.

[2] Axiologia (do grego axios = valor, valia + logos = teoria) é o termo atualmente utilizado para designar a teoria do valor, que investiga a natureza, a essência e os diversos aspectos que o valor pode tomar na especulação humana. Timologia (do grego tumh´= Avaliação + logos = teoria) é a disciplina que estuda o valor da avaliação, o valor extrínseco de alguma coisa. Ambas são disciplinas regionais da Ontologia. Dizemos que alguém faz valer algo, isto é, dá-lhe um valor, valoriza. Há uma frase do grande anarquista MAX STIRNER, que tem servido de lema para muitos anarquistas individualistas “...No limiar de nossa época não está gravada a antiga inscrição apolínea conhece-te a ti mesmo mas sim a nova inscrição faze valer a ti mesmo.

[3] No plano psicológico, nossos sentidos realizam sempre uma escolha entre diversos estímulos, recebendo apenas aqueles que correspondem aos esquemas sensório-motores e aos esquemas noéticos, intelectuais ou afetivos, racionais ou emocionais. Também no plano sociológico, os processos são os mesmos, desde as escolhas realizadas pelos indivíduos, que seguem normas afetivas, como na estruturação dos grupos sociais. O valor está presente em todos os atos que praticamos.

[4] Exemplos práticos da aceitação e predominância de alguns valores sobre os outros: valores mercantis e utilitários da nossa época (padrão desde a pré-infância); “Lei do Gerson”; ter em oposição ao ser.

[5] Todas as eras da Humanidade conheceram suas escalas de valores, ora predominando uns, ora outros. A classificação de SCHELLER pode ser ampliada, como muitos o fazem, ou até mesmo INVERTIDA. Para os socialistas autoritários, os marxistas, no ápice encontram-se os valores utilitários; para os anarquistas os valores éticos prevalecem sobre os demais; para os fascistas são os valores vitais e utilitários que predominam; para os cristãos, socialistas ou não, os religiosos.

[6] Todo o potencial criativo do ser humano é despertado por um impulso apaixonado, nas infinitas variáveis de sua manifestação. O último livro publicado de ROBERTO FREIRE, “Tesudos de Todo o Mundo: Uní-vos” é rico de exemplos deste aspecto.

[7] Não podemos esquecer que são conceitos emitidos em 1889, há 106 anos, quando a total dependência da mulher e dos filhos ao homem, em qualquer união conjugal, era objeto das discussões e de acerbas críticas dos anarquistas. Uma de suas trincheiras de propaganda. Hoje, em que pese todos os avanços e conquistas, a situação não mudou muito. A paternidade responsável e a solução para o problema das dissoluções conjugais só se verifica em casos isolados.

[8] Em uma palestra, na CASA DA SOMA, sobre amor livre, abordamos o assunto, juntamente com ROBERTO FREIRE e concluímos por essa conceituação. A expressão amor libertário é de ROBERTO FREIRE, a quem considero, entre os autores anarquistas que conheço, o maior e mais profundo na abordagem do tema, em termos atuais.

[9] O amor sexual permeia e influi no comportamento humano e nas ações políticas porque é intrínseco à natureza humana e está presente na história da humanidade.

[10] Citemos, entre muitos, os nomes de Louise MICHEL e de Emma GOLDMANN, os Mártires de Chicago, BAKUNIN, entre tantos, tantos outros. Bakunin, por exemplo, nos dá a seguinte definição de revolucionário: “... é aquele que, junto à inteligência, à energia, à lealdade e ao espírito de conspiração, possua também a paixão revolucionária e o diabo no corpo.” É literalmente impossível citar aqui os exemplos que transcendem todas as ideologias.

[11] Os antigos denominavam jubileu a indulgência plenária, solene e geral, concedida pelos papas aos católicos, nos primórdios do cristianismo, porque os homens tiravam de suas costas o peso do temor do castigo pelos pecados cometidos, ao livrarem-se das culpas. O termo tomou depois outros sentidos, mas mantém o conteúdo conceitual de satisfação plena, ou seja de uma profunda alegria. Não se trata de uma alegria qualquer, como certas alegrias passageiras, que deixam atrás de si uma marca sombria, até mesmo um rastro de tristeza. Trata-se do júbilo: uma das mais belas manifestações da paixão humana. Essa alegria, esse júbilo, é sempre excitante e criador de energias. O júbilo é predominantemente da intelectualidade e da afetividade implica um gozo mais profundo das coisas que almejamos. Para o anarquista, esta é a sua grande compensação.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

No dia 11 de dezembro aconteceu o último encontro do módulo I, do 1º Curso Livre de Anarquismo, cujo objetivo era “a discussão conjunta dos pensamentos, conceitos e práticas anarquistas básicos, partindo de seus clássicos”. Neste módulo, optamos por discutir o pensamento do filósofo francês Pierre Joseph Proudhon, historiograficamente localizado como o fundador do anarquismo, “o pai de todos nós”, segundo Mikhail  Bakunin.
 A partir da leitura de alguns capítulos das obras “O que é a propriedade?”; “Do Princípio Federativo” e “Sistemas de contradições econômicas ou Filosofia da Miséria”, de Proudhon, e da obra “Miséria da Filosofia”, de Marx, pudemos melhor conhecer o anarquismo proudhoniano. Pudemos, desse modo, aprofundar a reflexão sobre a crítica do pensador bisontino à propriedade e o Estado, instituições que segundo ele eram basilares para a produção e reprodução do sistema capitalista. Discutimos, igualmente, a sua proposta de transformação social, embasada no mutualismo econômico e no federalismo político.
Durante os quatros encontros que tivemos, recebemos um público de cerca de 20 pessoas. Ele era, basicamente, composto por militantes, pesquisadores, estudantes ( de ensino superior e médio) professores da rede pública e trabalhadores. De fato, foi uma surpresa perceber que tantas pessoas se interessaram pelo movimento e pensamento anarquistas na UFU, onde as tendências mais à esquerda são monopolizadas, quase que exclusivamente, pelo marxismo.
Após o término do Curso, organizamos uma “Pizzada Vegana” como  evento de encerramento. Nada melhor do que um evento festivo para terminar as nossas atividades de 2010, pois “ se não podemos dançar, então não queremos fazer parte da revolução”, como  advertiu Emma Goldman.
Estamos muito contentes com o resultado e esperamos, sinceramente, que o nosso esforço possa contribuir para uma maior inserção social e política do anarquismo em Uberlândia e cercanias. No primeiro semestre de 2011, avançaremos para 2° módulo do nosso Curso, voltado para a discussão do pensamento do anarquista russo Bakunin. Aguardem a programação. Iremos divulgá-la em breve!

Abraços libertários

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

CURSO E PIZZADA





Caros compas,

Escrevo este post para avisá-los de que nesse dia 11 de dezembro teremos o nosso último encontro de 2010. O texto de apoio,  "capítulo II" de "Filosofia da Miséria", de Marx, já está disponível para reprodução na pasta 88, da xerocadora do bloco O. O nosso encontro, como de costume, se realizará no bloco H, sala 1H235, no Campus Santa Mônica, da Universidade Federal de Uberlândia. Após o curso, haverá uma confraternização com uma pizzada vegana. Gostaria de pedir a todos que irão comparecer que confirmem com antecedência pelo e-mail: coletivomundoacrata@gmail.com, pois precisamos fazer a logística.

Até sábado e abraços libertários,

Thiago Lemos Silva.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Dicionário Histórico-Biográfico do(s) Anarquismo(s) no Brasil

Anarquismo reconstruído

Dicionário histórico-biográfico reconta a história deste movimento no Brasil

O espanhol José Romero desembarcou no Brasil em 1890, aos dois anos de idade, aqui estabeleceu residência durante 29 anos, teve filhos e trabalhou como operário têxtil. Edgard Leuenroth, filho de farmacêutico alemão, nasceu no ano de 1881, em Mogi-Mirim (SP), trabalhou como menino de escritório, balconista, aprendiz de tipógrafo e jornalista. O professor José Oiticica era brasileiro, nasceu em 1882, na cidade de Oliveira, Minas Gerais, foi também poeta, teatrólogo e filósofo. Estes três homens têm muito em comum, além do fato de terem vivido no mesmo momento histórico. Eles compartilharam idéias e valores: fizeram parte do chamado movimento anarquista, que se desenvolveu no Brasil nas primeiras décadas do século XX.
Estes são apenas alguns, entre as dezenas de personagens que terão suas minibiografias registradas no Dicionário histórico-biográfico do anarquismo(s) no Brasil, obra que está sendo preparada a partir dos resultados de estudos sobre o anarquismo no Brasil, coordenados pela professora Jacy Alves de Seixas, da Universidade Federal de Uberlândia.
Por meio da atuação dos militantes, o trabalho desvenda os caminhos e as peculiaridades do movimento no país.
O anarquismo nasceu na Europa, em meados do século XIX, junto com o marxismo e outras correntes socialistas.
O movimento, que tem como princípio a luta de classes e a ação direta, teve seus antecedentes em alas radicais da Revolução Francesa e ganhou força a partir da Revolução Industrial, com o desenvolvimento do capitalismo. Os anarquistas defendem a ausência de governo, a liberdade individual e a igualdade social, razão pela qual combatem fortemente o capitalismo. “Desde o início, o anarquismo era um questionamento da representação política, o poder de falar e agir não devia ser delegado. Esse é o principal ponto em que diverge do socialismo”, explica Jacy Seixas.
No Brasil, seu surgimento, nas primeiras décadas do século XX, coincide com um momento de grande imigração, com a explosão demográfica, a criação dos bairros operários e o emprego da mão-de-obra livre no desenvolvimento da economia cafeeira e da indústria incipiente. “Queremos reabrir a discussão sobre o primeiro movimento operário no Brasil, que é o anarquista”, constata a professora.
Os estudos sobre o anarquismo no país são, segundo os organizadores do dicionário, ainda insatisfatórios.
A historiografia aponta uma visão estreita, que tende a mostrá-lo como um movimento que não passou de uma utopia de começo de século, que não conseguiu alcançar de maneira suficiente os meios operários e perdeu apoio popular, sucumbindo perante o Estado. O trabalho propõe, por meio de registros da época, uma nova forma de ler essa página da história, partindo dos personagens que dela participaram. “Valorizamos cada indivíduo que fez parte daquele momento e que, por meio das pesquisas, pôde ser localizado, e não apenas dos líderes e os que obtiveram maior destaque”, conta. A idéia é registrar experiências e perfis anarquistas para mostrar o movimento, abrindo possibilidades de novas pesquisas.
Uma das visões que o estudo desconstrói em relação ao anarquismo é a de que ele seja uma idéia externa à realidade brasileira, pregada por uma minoria de militantes que vinham de outros países. A identificação com imigrantes era, na época, inclusive uma maneira de desqualificar o movimento. Segundo a pesquisadora, não se pode minimizar a contribuição do estrangeiro na construção das manifestações operárias brasileiras, ainda mais considerando sua presença efetiva na formação das próprias classes proletárias, mas os registros mostram que os militantes não eram apenas imigrantes, muitos eram brasileiros e vinham, sobretudo, do movimento republicano. Os ativistas apresentam múltiplos perfis, que contribuem para a construção do anarquismo. Alguns iniciam desde a juventude seu engajamento, outros aderem já na maturidade, a partir do contato com a literatura libertária, ou com a realidade dos trabalhadores, incluindo tanto militantes que vieram de outros países, quanto pessoas nascidas ou que se formaram, politicamente, no país.
Além disso, o anarquismo prezava, independentemente de nacionalidade, a luta dos trabalhadores contra o sistema capitalista. Assim, o envolvimento dos imigrantes nas questões sociais não estaria vinculado à sua origem, mas à sua inserção na sociedade brasileira e ao desejo de transformação social.

Cultura Nacional

O discurso anarquista opunha-se diretamente aos valores do capitalismo, a toda atitude e estilo de vida que fossem associados a valores “burgueses”. No Brasil, essa oposição manifestava-se em relação ao catolicismo, ao baile, ao futebol e às bebidas alcoólicas.
Jornais e outros registros da época mostram que o anarquismo, como movimento social e político, consegue penetrar no Brasil e desenvolve, no país, características próprias. Os anarquistas atuam não apenas por meio da divulgação dos ideais libertários, mas organizam um expressivo sindicalismo e associações diversas, como ligas de inquilinos, de bairro, grupos de teatro, centros de estudos, entre outras. “Além de comícios e greves, eles criam vias de convivência, como centros de cultura, onde mesclam diversão e politização, festas-propaganda, piqueniques, publicam jornais e panfletos para divulgar assuntos diversos que dizem respeito à vida operária”, conta Jacy Seixas.
Essa diversidade de práticas é vista pelos pesquisadores como um indício de que as idéias libertárias atingiram um grande número de pessoas, entre homens e mulheres de distintas nacionalidades, ocupações e condições socioeconômicas, que acabam se tornando militantes ou simpatizantes.
A incorporação de idéias como o antimilitarismo, a preocupação com o papel da mulher, a defesa da liberdade sexual, entre outras, no cotidiano das pessoas aponta a existência de uma “cultura anarquista”, já que alguns desses traços ultrapassam os limites do movimento operário e permeiam outras dimensões da vida de homens e mulheres que não se dizem anarquistas.
De acordo com Jacy Seixas, o anarquismo nasce das relações humanas existentes naquele período e da luta pela emancipação social travada dentro de um contexto. Ele tem uma formação histórica, e não pode ser caracterizado como mera ideologia propagada por “agitadores estrangeiros”.
A estratégia operacional proposta para promover a transformação social era a “ação direta”, que prega a atuação livre e espontânea da pessoa, preservando sua autonomia. O próprio indivíduo deve agir para alcançar seus objetivos, e não obtê-los por meio da ação de terceiros, pois, para eles, quem dá o poder de decisão a outros não é livre. “Baseados nesse princípio, eles criam o primeiro sindicalismo no Brasil”, conclui Seixas.
Virgínia Fonseca
Fonte: Revista Minas Faz Ciência Nº 24 (dez de 2005 a fev de 2006)
Disponível em: http://revista.fapemig.br/materia.php?id=413 .

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Por el brujo tavares
convida todos a participarem de seu
I CURSO LIVRE DE ANARQUISMO
*#*
O objetivo do curso é a discussão conjunta dos pensamentos, conceitos e práticas anarquistas “básicos”, partindo de seus “clássicos”. Convidamos todos aqueles que se interessem pelo tema, mesmo que não tenham qualquer estudo ou contato anterior com o anarquismo.
Não é necessária inscrição prévia ou qualquer tipo de pagamento. Ao fim de cada módulo temático, haverá emissão de certificado.
INFORMAÇÕES DO PRIMEIRO MÓDULO:
PIERRE-JOSEPH PROUDHON
Datas:






●1° Encontro: 06/11 (Texto base: Capítulo V de “O que é a propriedade?”
●2° Encontro: 20/11 (Texto base: Capítulos VI ao XI de “Do princípio Federativo”)
●3° Encotro: 04/12: (Texto base: Capítulos I e III de “Sistemas de contradições econômicas ou Filosofia da miséria”)
●4° Encontro: 11/12 (Texto base: Excerto do Capítulo II de “Miséria da filosofia”)

→ Todos os encontros serão realizados aos sábados, 14:00 h, Sala (1H235)
Uberlândia-Minas Gerais
UFU-Campus Santa Mônica.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Entrevista com Fabrício Monteiro, autor do livro “O niilismo social: anarquistas e terroristas no século XIX”


 
[O historiador Fabrício Monteiro* acaba de lançar o livro “O niilismo social: anarquistas e terroristas no século XIX**” (Editora Annablume). Leia a seguir a entrevista que ele concedeu a Moésio Rebouças da ANA*** sobre a sua obra.]

Agência de Notícias Anarquistas > Gostamos de começar a entrevista pedindo para a pessoa falar um pouco de si, de sua trajetória libertária...

Fabrício Monteiro < Sou natural de Araguari (MG), mas vivo na cidade de Uberlândia faz tempo. O anarquismo surgiu para mim via educação. Inicialmente, a partir de minha própria experiência como estudante na época do colegial, foi tornando-se cada vez mais evidente e nauseante para mim a hipocrisia do sistema escolar oficial. As manifestações que, para nós alunos, pareciam criativas e reflexivas no interior da escola eram classificadas com “inapropriadas” (e suprimidas como tal). O sentimento, já claro naquela época, da ridícula contradição dos lindos discursos de professores e da direção escolar sobre nós como “cidadãos” sendo formados e do que eles mesmos pregavam mais tarde sobre o santo “mercado de trabalho”. Depois de ter uns parcos contatos iniciais com as idéias anarquistas fui estudar História na faculdade (ano 2000), com a única intenção de ser professor e fazer diferente do que eu mesmo tinha passado. Na Universidade Federal de Uberlândia, durante a graduação, havia um grupo de estudantes que haviam participado de um “cursinho pré-vestibular alternativo” (muito em voga na época), mas que se retiraram do projeto após tentarem propor formas diferentes de trabalho com os alunos, para além do preparo para o vestibular. Formaram em 2002 o Projeto Educacional Circus (eu estava nesse meio), um curso-livre e auto-sustentado (a estrutura física eram algumas salas emprestadas pela universidade) que incluíam, na época, aulas e trabalhos com artes cênicas, humanidades, discussões político-sociais. Apesar de “disfarçado” oficialmente de “pré-vestibular alternativo”, o que mais chamava a atenção naquela experiência de educação libertária era a gestão coletiva do projeto, envolvendo professores e alunos em reuniões coletivas para a decisão – via consenso, quando possível – de todos os aspectos do grupo (desde gastos financeiros, destino de vagas remanescentes, pertinência ou não de assuntos de aulas...). O Projeto Circus terminou em 2005 (uma ala “pré-vestibuleira” venceu por força numérica) e, após um episódio malfadado (mas muito interessante, talvez eu o conte um dia...) de tentativa de construção de um “squat” na cidade por algumas daquelas pessoas somadas a outros grupos e indivíduos libertários, aquele núcleo original foi se dispersando...

ANA > E como surgiu a idéia de escrever o livro “O niilismo social: anarquistas e terroristas no século XIX”?

Fabrício < Diretamente o livro vem de uma pesquisa de mestrado. Minha preocupação principal é com a condição niilista atual, que, em poucas palavras, é motivada pela fragmentação de referências e valores e pelo intenso controle social sobre os indivíduos, o que atrapalha o desenvolvimento da autonomia de cada um. O século XIX e o terrorismo revolucionário surgiram como forma de comparação histórica com nossa contemporaneidade e como busca das origens políticas de alguns sentidos da palavra “niilismo”.

ANA > Ele acaba de sair do forno, não?

Fabrício < O livro saiu agora pela Annablume (maio de 2010). A discussão sobre o niilismo contemporâneo ficou de fora por enquanto.

ANA > E deu trabalho escrever este livro, pesquisar, levantar as informações?

Fabrício < Você vai perceber que não é um livro extenso (só 104 páginas no total), mas as discussões contidas ali são densas e não foram simples de organizar. Você começa com alguns questionamentos, vai atrás de documentação, percebe que novas perguntas que surgem não são respondidas por ela e tem que buscar novas informações em outros lugares... No total foram uns três anos e meio de pesquisa mais um pouco para dar o formato final da escrita.

ANA > Poderia fazer um resuminho do livro? É uma obra baseada em muitas experiências “niilistas anarquistas”?

Fabrício < O termo “niilismo”, nos sentidos atuais (pois a palavra em si é mais antiga, mas tinha outras conotações, diferentes das de hoje) surgiu como uma tentativa de definição para grupos revolucionários russos da segunda metade do século XIX em luta contra o czarismo. Era uma palavra de caráter negativo, sinônimo de “destruição total da organização e valores sociais” usada nos jornais e literatura da época para denegrir os objetivos de transformação social dos revolucionários (Nietzsche, mais tarde se apropriaria da palavra e daria sentidos filosóficos diversos para ela). Percebe-se que, naquele sentido, o niilismo se assemelha a definição “burguesa” do anarquismo e essa ligação não era por acaso; assim como na Rússia o fechamento de cerco dos governos contra as ações revolucionárias – como o Ir ao Povo russo ou a Comuna de Paris na França – levou algumas pessoas às propostas de ação direta e violenta contra os governantes e burguesia através do terrorismo. O “niilismo” russo foi uma compreensão “importada” da Rússia (e somada a compreensões que as classes dominantes ocidentais já tinham sobre os anarquistas) para França, Itália, Espanha etc. O livro trata disso: discussão sobre esses movimentos russos no primeiro capítulo e o terrorismo anarquista na Europa ocidental no segundo.

ANA > Que personagens são descritos no seu livro?

Fabrício < Não há um aprofundamento específico em tal ou qual personagem, pois o objetivo é uma visão um pouco mais ampla sobre os acontecimentos políticos revolucionários e sobre as versões sobre eles (dos segmentos dominantes, através da literatura e dos jornais da época, e dos próprios revolucionários, através de seus depoimentos, discursos e memórias). As discussões envolvem o grupo Vontade do Povo e Netchaiev, na Rússia, Ravachol, Vaillant, E. Henry, Caserio, Lucheni, Czolgosz no ocidente. Discussões sobre a curiosa “Internacional Negra” e o infame Cesare Lombroso. E outras coisas.

ANA > Existe alguma figura do livro que você se identifique?

Fabrício < Individualmente não, mas me chama a atenção a sensibilidade de todos os anarquistas terroristas. Parece paradoxal, não? Mas a sensibilidade era algo que movia todos os atos daquelas pessoas. O fragmento de autobiografia de Lucheni (“História de um menino abandonado no fim do século XIX contada por ele mesmo”) é, nesse sentido, marcante.

ANA > Concordo plenamente quando você fala em sensibilidade destes "anarquistas terroristas". Você não acha que muitas destas ações levadas a cabo estavam impregnadas daquela máxima proferida por Bakunin, de que a vontade de destruir é ao mesmo tempo uma vontade criadora?

Fabrício < Exatamente. É claro que não se tratava dos atentados pelos atentados; das explosões pelas explosões. Quando Turgueniev cria seus personagens “niilistas” como puros destruidores ele, que faz uma literatura contrária à política revolucionária na Rússia, ajudou – e muito – na disseminação da idéia de que tratavam-se de “fanáticos” e “arautos do apocalipse”. Esta visão estendia-se também aos anarquistas por parte das elites e classes médias. Para estes grupos a proposta de criação de uma sociedade sem governantes e propriedade privada não se sustentaria, era o mesmo que propor a destruição pura e simples da sociedade porque seus “alicerces” não estariam mais lá. Por seu lado, depois de presos e condenados, os anarquistas não tentavam escapar da pena de morte ou se arrependiam de seus atos, pois tinham certeza que contribuíram para a construção dessa nova sociedade, sem exploração de classe e repressão governamental.

ANA > As ações expropriadoras da época também são abordadas na sua obra?

Fabrício < O foco central das discussões gira em torno dos diferentes sentidos para o “niilismo”, termo politicamente pejorativo atribuído aos revolucionários (inicialmente na Rússia). Um primeiro significado para essa palavra, na voz dos segmentos governamentais e “burgueses”, envolvia um grande espanto frente ao “desrespeito” que aqueles revolucionários mostravam a valores considerados intocáveis e inquestionáveis pelas elites (a religião, a propriedade, a autoridade governamental etc.): ser niilista era sinônimo, para estes grupos, de ser amoral. O máximo do “vazio de valores” (daí o “niil”, ou “nada” em latim) seria o atentado direto à vida de pessoas (juízes, reis, presidentes, policiais, donos de fábricas e empresas...). O livro, especialmente no segmento sobre os anarquistas, enfatiza estes episódios, discutindo, inclusive o caráter desta suposta “amoralidade” niilista. Paralelamente vão sendo mostradas as reações dos governos frente a este tipo de ação.

ANA > E qual era a participação das mulheres nestes episódios?

Fabrício < Especialmente no movimento revolucionário russo da segunda metade do século XIX as mulheres estavam ativamente presentes e em uma proporção nada desprezível. Uma das estatísticas citadas pode dar uma noção disso: durante a repressão do Estado czarista de 1874 à Campanha “Ir ao Povo”, 770 pessoas foram oficialmente presas, sendo que destas, 158 eram mulheres. A ação do grupo “Vontade do Povo”, que interceptou a comitiva de Alexandre II e assassinou-o com uma bomba em 1881, foi dirigida por uma mulher, Sofia Perovskaia. Ela seria presa e executada posteriormente (Gessia Helfmann acusada de participação nos planos também foi presa e morreria na prisão). Vera Zassulich, posteriormente uma das fundadoras do marxista Partido Social-Democrata russo, foi egressa da “Repartição Negra”, uma das organizações que tentou seguir a luta da “Vontade do Povo” após seu desmantelamento. Não conheço uma anarquista que tenha se engajado tão diretamente em uma ação do gênero, mas podemos nos lembrar de Mariette Soubère como uma das pessoas que ajudou a planejar e apoiou os atentados à bomba de Ravachol contra as residências de Bulot e Benoit.

ANA > De memória eu lembro da história de uma anarquista russa chamada Fanya Kaplan, que tentou matar Lenin...

Fabrício < E ele teve sua “vingança”, não é? Em uma proporção bem maior... lembremos da Ucrânia, por exemplo.

ANA > Houve algum país que se destacou pelo volume de ações “terroristas”?

Fabrício < Acho que não será surpresa ao destacar-se a Espanha entre os países onde a via terrorista teve um grande destaque, com algo próximo de 50 vítimas fatais (entre estas o primeiro ministro Cánovas del Castillo, em 1897) e mais ou menos 100 feridos. Itália e França também têm destaque, mas a preocupação dos governos era geral nesta época. Lembremos que a Conferência de Roma, realizada em 1898, quando os dirigentes europeus reuniram-se no auge dos atentados para tentar coordenar uma ação conjunta contra os anarquistas, nada menos que vinte e uma nações estavam presentes através de seus delegados.

ANA > Normalmente estas ações eram feitas em grupos ou individualmente?

Fabrício < A ignorância das diferenças do caso da Rússia com os países ocidentais, como França ou Itália, por exemplo, ajudou inclusive na fusão de sentidos do “niilismo” russo e do terrorismo anarquista pelos segmentos dominantes. A “sociedade secreta”, pequenos grupos clandestinos que se reuniam para planejar e executar atos revolucionários (não só terroristas), era comum na Rússia. O elevado grau de censura e repressão czarista forçou os movimentos revolucionários a organizarem-se dessa forma para tentarem continuar a existir. No caso dos anarquistas da Europa ocidental as ações eram muito mais individuais, desde a intenção em si, a escolha do alvo, o planejamento e a execução do ato. A seqüência de atentados na França, por exemplo, a partir de Ravachol, passando por Vaillant, Henry e Caserio não ocorreu como uma ação coordenada entre os anarquistas, que na maioria das vezes nem se conheciam, mas por uma sensibilização pessoal devido a prisão e execução do companheiro de luta anterior. A ação de Ravachol, destas citadas, foi a única planejada em grupo, mas era uma vingança imediata contra um juiz e também foi executada individualmente. Pensar que haviam “células” anarquistas terroristas espalhadas por toda Europa foi um pensamento comum entre os governos da época e que foi tão forte que gerou o “mito” da Internacional Negra terrorista, discutido no livro.

ANA > Na época estes “anarquistas terroristas” eram considerados muito danosos para o movimento libertário, recebiam muitas críticas por suas ações, não?

Fabrício < Sim. Mesmo que muitos anarquistas fossem favoráveis ao protesto aberto e a outras formas de ação direta, a ação terrorista era rejeitada como legítima ou útil por grande parte deles. Kropotkin, Faure e Malatesta são exemplos. Importante destacar, porém, que isso não transforma os terroristas em “individualistas” no sentido teórico do “anarquismo-individualista” de, por exemplo, Tucker. As referências de revolução, funcionamento da sociedade, ideal de organização futura da anarquia destes terroristas ainda eram coletivistas ou comunistas. Sua ação poderia ser isolada, pois eram sempre re-ações imediatas a atos do governo (execução ou prisão de um companheiro, repressão violenta de determinada greve, lei anti-anarquista aprovada etc.); o terrorismo anarquista não tinha como objetivo ser um mecanismo da revolução em si.

ANA > Ao escrever o livro, você encontrou algum episódio que merecesse um filme?

Fabrício < (risos) Pergunta interessante! Desde que não fosse feito em Hollywood! A vida de qualquer um deles daria um ótimo filme. Há sempre algo de fascinante em pessoas como aquelas. Na própria época, detalhes das prisões, dos julgamentos eram avidamente acompanhadas pela própria burguesia através dos jornais diários; as execuções eram vistas por centenas e centenas de pessoas nas praças. A trajetória de vida, desde a infância, de Ravachol e Lucheni, por exemplo, são muito marcantes em termos de demonstrar o sofrimento das classes operárias da época. As ações do Vontade do Povo (tentativa de explosão do comboio imperial, infiltração no Palácio de Inverno do czar e colocação de dinamite sob o assoalho...) são realmente espetaculares. Mas só seriam filmes interessantes se conseguissem captar a humanidade, por contraditória que fosse, daquelas pessoas e não as colocassem como “máquinas revolucionárias de matar”.

ANA > O seu livro trata mais dos movimentos russos e da Europa ocidental. Isto foi proposital ou você pretende escrever outro livro sobre o assunto, mas focando a América Latina?

Fabrício < Não foram locais escolhidos por puro capricho. Minha intenção primeira foi buscar as discussões mais iniciais sobre o niilismo em sua forma social-política e fui “obrigado” a tratar dos russos por isso. Os anarquistas da Europa ocidental surgiram como opção de dar uma seqüência direta disso, pois as acusações feitas contra os russos eram muito parecidas com aquelas feitas contra os anarquistas e também houve um “intercâmbio” entre as formas de ações dos revolucionários daqueles dois cenários. Sinceramente não tenho o plano de tratar do assunto na América Latina, convido outro a aproveitar essa sugestão. No momento o que me preocupa, como pessoa política e como pesquisador –coisas que não se separam - , é certa “versão” do niilismo na atualidade. Certo esgotamento na capacidade criativa geral da sociedade, a apatia resignada de muitos frente às situações que se encontram, a individualidade autônoma soterrada por medos que levam à busca pelo consumo de respostas fáceis e conformistas... Esta é a niilificação que me faz refletir hoje; a “nulidade” criativa e transformadora que persiste por aí.

ANA > Que relação você faz destas ações diretas “violentas” do século XIX com o insurrecionalismo anarquista de hoje, as ações diretas pela libertação animal e da terra?

Fabrício < Claro que são situações particularmente diferentes. O terrorismo revolucionário do século XIX só teve um impacto tão grande na memória social (até hoje a dinamite é relacionada com o movimento anarquista vez ou outra por críticos mais cabeça-dura) porque chocou valores considerados essenciais do ser humano por parte daquela sociedade. É o caso do valor da vida individual (pode parecer algo universal para nós, mas o valor da individualidade é historicamente e socialmente construído) e que não era considerada com o mesmo sentido pelos terroristas; talvez para eles a vida fosse ainda mais sublime que para a “burguesia” individualista.

Hoje a quase totalidade dos anarquistas não compartilha (espero!) o mesmo imaginário daqueles companheiros do século XIX, então sua ação direta possui outro caráter, penso eu, mesmo que também se utilize da “violência”. O “chamar a atenção” da sociedade para determinados problemas de forma “impactante” é necessário em uma realidade onde a apatia mantém-se ainda dominante, mas isso não tem mais o sentido de retaliação imediata, quase como uma “vingança” movida pelas emoções, como tinha no passado.
Destaco, porém uma semelhança: o ato “violento” demanda muita energia e riscos; ninguém o utiliza como primeira opção de ação. Não foi a primeira opção no século XIX e nem é hoje. No passado a censura total, a falta de brechas de atuação, as deportações, prisões imediatas e execuções sumárias levaram ao terrorismo. Atualmente o Estado e o poder do capital continuam controladores e fechando cada vez mais o cerco (através de novas armas e estratégias), com seu ridículo disfarce de democracia e liberdade de expressão, ou o insurrecionalismo não precisaria retornar com a força crescente de hoje.

ANA > O que eu percebo hoje na diversidade anarquista é que não há ações que tenham como alvo reis ou presidentes como no passado, até porque o nível de proteção e segurança destes figurões se sofisticou e mudou bastante. Mas também é fato que nos últimos anos aumentou, em vários pontos do mundo, as ações diretas incendiárias e de libertação animal, ataques a propriedades capitalistas, em defesa da natureza, expropriações, enfim, ações mais ousadas...

Fabrício < É verdade, embora às vezes todo esse aparato pode ainda falhar: não foi um atentado político, mas lembra do Silvio Berlusconi em dezembro passado? Mas estas ações mais ousadas, penso eu, ampliam-se hoje um pouco pelo que falei anteriormente. Percebemos que, por mais “liberdade de expressão” que tenhamos hoje (diferente do século XIX) ela não permite um debate de idéias verdadeiro na sociedade, a organização de formas de auto-educação populares efetivas etc. A maleabilidade e eficiência do capital e do Estado atuais em envolver, transformar e neutralizar iniciativas desse tipo, aparentemente mais “pacíficas”, é tão forte que alguns resolvem partir para ações mais diretas.

ANA > Você falou em "sensibilidade" anteriormente. A meu ver sensibilidade está intimamente ligada a coragem, ousadia... Aí eu pergunto: a anarquia cabe em corações medrosos?

Fabrício < A sensibilidade, na minha visão, envolve coragem, ousadia e também – talvez, sobretudo – a capacidade de perceber a posição do próximo. Sensibilidade envolve solidarizar-se, pois você consegue enxergar o outro como um ser humano igual a você. Se você sente dor, medo, humilhação etc. e tem sensibilidade para perceber que o outro também sente estas coisas aí está, a meu ver, meio caminho andado para o anarquista (mas a outra metade do caminho, da ação em si para o auxílio do outro também é fundamental). Não estou dizendo nada de caráter cristão – a não ser que alguém veja um cristianismo sem igrejas e também sem o auto-rebaixamento do indivíduo frente ao “sagrado”. Fazer atuar esta sensibilidade na sociedade requer fundamentalmente coragem e aí sim concordo plenamente com você, desde que respeitemos também o processo de cada um do fazer-se anarquista, sem exigir do outro atitudes que nós mesmo classificaríamos como “corajosas” ou “mínimas” para o anarquista “ideal”.

ANA > Última pergunta para finalizar. Uma vez o presidente Lula disse que o povo brasileiro é doce, pacífico, fácil de se governado. E dias atrás, durante um discurso para funcionários da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, falou que o trabalhador brasileiro não precisa mais ficar distribuindo folhetos na porta das fábricas e xingando os patrões... O que você acha dessas declarações? (risos)

Fabrício < Claro, temos a “democracia”, temos a “transparência”, “liberdade de opinião e manifestação” e blábláblá... Mas não vejo uma simples hipocrisia no Lula, apenas uma mudança de posição (de idéias) de quem mudou de posição (político-social). Bakunin bem já avisava...

ANA > Mais alguma coisa?

Fabrício < A memória do terrorismo revolucionário foi por muito tempo sufocada e rejeitada pelos próprios anarquistas, mas isso teve um motivo político plenamente justificável na época (até meados do século XX). O ideal anarquista não conseguiria se fortalecer com uma taxação tão “pesada” como as acusações de “destruidores”, “violentos”; “niilistas”, enfim. Hoje, entretanto, podemos retomar esta memória como fonte de reflexão para nosso presente e tentar compreendê-la melhor, sem repetirmos nós mesmos as acusações feitas pelas elites do passado sobre os companheiros do século XIX.

* Fabrício Monteiro é doutorando em História pela UFU (Universidade Federal de Uberlândia) e professor de História na rede pública municipal de Uberlândia-Minas Gerais.

**Quem quiser adquirir o livro é só entrar em contato com Thiago Lemos Silva atráves do e-mail: thiagobakunin@yahoo.com.br. Ou então atráves do site da editora:www.annablume.com.br. Em ambos os casos, o leitor conseguirá obter o livro por um valor mais em conta que nas livrarias.

***Entrevista concedida a Moésio Rebouças, coordenador da ANA (Agência de Notícias Anarquistas) entre os dias 3 e 5 de junho de 2010.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

NEPHISPO
(Núcleo de Estudos e Pesquisas em História Política)


CONVIDA

Noitadas Anarquistas

Palestra-debate:


O (des)encontro do brasil consigo mesmo: ditos e escritos de Edgard leuenroth

com:

prof.dra. Christina Roquette Lopreato

Texto de apoio: Lopreato, C.R.. O (des) encontro do Brasil consigo mesmo: ditos e escritos de Edgard Leuenroth

11 de novembro, às 19:00h
Sala 1h48 – Bloco H
UFU-Campus Santa Mônica
Uberlândia – Minas gerais

Coordenação: profa. Jacy Alves de Seixas