segunda-feira, 11 de abril de 2011

O caçador do tesouro perdido da tradição revolucionária: Rudolf Rocker, os conselhos operários e a Revolução Russa*


Rocker, Rudolf. Os sovietes traídos pelos bolcheviques. São Paulo: Hedra, 2007

Os conselhos são órgãos revolucionários que surgem espontaneamente entre as classes trabalhadoras em períodos onde a ruptura com a sociedade capitalista e a construção da sociedade socialista se apresentam como possibilidade real para os proletários e camponeses presentes em tais momentos de convulsão social. Os conselhos tem por objetivo superar a estrutura econômica e política da sociedade burguesa, que se baseia na propriedade privada e na democracia parlamentar.
Os conselhos visam, desse modo, erigir um tipo de administração onde, uma vez socializados os meios de produção, os trabalhadores se organizam de baixo para cima a partir de pequenas unidades, tais como as fábricas, escolas, comunidades etc.. para gerir diretamente os assuntos concernentes a sua existência coletiva. Depois de interligadas, tais unidades substituem o Estado liberal de direito na tarefa de articular as diferentes partes que compõem a totalidade do corpus social.
Assim sendo, podemos perceber que os conselhos operários podem assumir conteúdos distintos, que são, por sua vez, dependentes do contexto histórico em que estes emergem e se consolidam. Foi desse modo que procedeu com a Comuna de Paris em 1871, os sovietes na Revolução Russa em 1905 e após, em 1917, os rattes na Revolução Alemã em 1919, as coletividades na Guerra Civil Espanhola em 1936, os caracoles zapatistas no México em 1993 e, mais recentemente, as asambleas na Argentina em 2001.
Usualmente, o conselhismo é tomado como uma expressão filosófica típica do marxismo, mais especificamente do marxismo heterodoxo. Isso fica bastante evidente quando nos deparamos com o trabalho de autores do quilate de Rosa Luxemburg, Anton Panekoek, Paul Mattik, Hermam Gorter entre outros. Não obstante, a reivindicação dessa herança não é feita apenas pelos marxistas. Como iremos ver mais adiante, outras correntes do pensamento socialista também exigem o seu lugar junto aos demais executantes testamentários do legado deixado por aquilo que seria, segundo a feliz expressão de Hannah Arendt, o “tesouro perdido da tradição revolucionária”.
Dentre essas outras correntes do pensamento socialista estão, naturalmente, os anarquistas, cujas reflexões acerca dos conselhos são anteriores e, em certos aspectos, mais profundas do aquelas realizadas pelos seguidores de Marx. Nesse sentido, não foi por acaso que o anarquista alemão Rudolf Rocker se esforçou, a maneira de um caçador, para descobrir e decifrar a obscura, porém viva, presença desse tesouro perdido no interior de uma tradição revolucionária que anunciava o fim da desgraça representada pela exploração econômica e pela dominação política. Esforço este, em grande parte, organizado e sistematizado no livro “Os Sovietes traídos pelos Bolcheviques”, obra em que o autor levanta e discute questões significativas para um correto entendimento acerca da teoria e prática conselhista.
Nessa direção, a presente resenha do livro de Rocker tem o objetivo de, por um lado, refletir sobre a origem teórica dos conselhos, demonstrando a sua estreita proximidade com a tendência anarquista que se desenvolve no seio da Primeira Internacional e, por outro, analisar o desenvolvimento prático dos conselhos durante a Revolução Russa de 1917, sublinhando a sua eventual incompatibilidade com ditadura do proletariado implantada pelo partido bolchevique após a tomada do poder por Lênin e seus seguidores.
Ao traçar a genealogia da idéia de conselhos, Rocker remonta até a longínqua década de 60 do século XIX, período onde aparece, como já sabemos, a Associação Internacional dos Trabalhadores. Para o nosso autor, foi com o surgimento e transformação da Internacional que o movimento operário europeu começou a se preparar para “despojar os últimos restos do radicalismo burguês e voar com as suas próprias asas” (p.78).
Portanto, na medida em que a Internacional tomava consciência de si mesma, a idéia dos conselhos operários ia ganhando contornos cada vez mais nítidos entre seus aderentes. De congresso em congresso, essa idéia aparecia aqui e acolá. Mas, sem sombra de dúvidas, ela só foi precisada e desenvolvida coma clareza que lhe era necessária no Congresso da Basiléia, no ano de 1869. De acordo com Rocker, foi no congresso em questão que o anarquista belga Eugins Hins teria discutido pela primeira vez as tarefas presentes e futuras das organizações sindicais no que concerne a realização do socialismo.
Em sua moção, Hins sustentava que da organização surgida para a defesa do trabalho contra o capital, nascerá “a administração política das comunas”, onde “os conselhos das organizações de ofícios e indústrias substituirão o governo atual e a representação do trabalho substituirá de uma vez por todas os velhos sistemas políticos do passado”. (p.80)
Segundo Rocker, tal premissa teria surgido da compreensão de que existe uma íntima relação entre os fatores econômicos e políticos que compõem a vida social. Como acreditava que, com a vinda do socialismo, a era da exploração do homem pelo homem teria findado, a dominação do homem pelo homem também deveria sê-lo.
Logo, a materialização da sociedade socialista demandaria não apenas de uma nova forma de expressão econômica, mas, também e, sobretudo, de uma nova forma de expressão política, pois, ela só seria realizável no âmbito desta última. “Essa nova forma”, pensava ele, “poderia ser encontrada no sistema de conselhos”(p.80).
Como estavam cônscios de que a sua tarefa era se apoderar dos meios de produção econômica, acreditavam não ter necessidade de organizar um partido político e tomar o poder do Estado, mesmo que este último tivesse o nome de proletário. Para Rocker, o adágio sainti-simoniano de que o governo dos homens deveria dar lugar à administração das coisas era a pedra de toque identitária da filosofia dos internacionalistas.
Todavia, apenas as seções espanhola, italiana e francesa, que se encontravam sob a influência das idéias de Bakunin é que aderiram e, portanto, defenderam a proposta conselhista. Em virtude disso, tiveram, irrevogavelmente, de se bater contra Marx, Engels e os demais representantes do Conselho Geral, que ficava situado em Londres. Ao contrário dos anarquistas, os marxistas acreditavam que era a ditadura do proletariado, sob a direção do partido de vanguarda, a quem caberia a incumbência de reconstituir a sociedade num sentido socialista.
Segundo o anarquista alemão, Marx teria herdado essa teoria dos jacobinos e outros intelectuais vinculados à burguesia radical. A título de exemplo, Rocker cita o livro “O Manifesto Comunista” escrito por Marx, em pareceria com Engels, onde a idéia de ditadura do proletariado parece como sinônimo da tomada do poder do Estado por um partido político, que existiria até que os conflitos entre as classes desaparecessem completamente.
Como o despotismo do método corresponde ao despotismo da ação, não demorou muito para Marx conseguisse expulsar os anarquistas da Internacional. Foi justamente o que aconteceu no Congresso de Haia em 1872, onde o Marx conseguiu, através da manipulação dos votos, obter a maioria necessária para expulsar Bakunin, Guilhaume e outros anarquistas, neutralizando desse modo a influência dos mesmos sobre o movimento operário europeu. Após o fim da Internacional, que depois de transferida para Nova York perdeu qualquer relevância política, e a destruição da Comuna de Paris, fatos ocorridos no mesmo ano, o conselhismo foi completamente olvidado.
Somente em algumas décadas posteriores, com o surgimento do sindicalismo revolucionário francês, que, aliás, estava profundamente impregnado pelo anarquismo, que tal situação haveria de se alterar. Como indica Rocker, a atividade dos anarquistas Fernand Pelloutier, Emile Pouget e George Yvetot junto ao movimento operário no período de 1900 a 1907 assumiu uma importância fulcral para a retomada e reatualização da teoria e prática conselhista.
Resguardadas as devidas diferenças históricas, o nosso autor aduz que foi essa mesma idéia que serviu de inspiração para os operários e camponeses russos nos primórdios da Revolução de 1917, até que ela fosse totalmente subordinada e substituída pela ditadura do proletariado.
Refletindo sobre as causas que levaram a experiência socialista na Rússia ao seu malogro, Rocker sustenta que para além do pouco desenvolvimento industrial, isolamento frente às outras nações capitalistas e, somando-se a isso, avanço da reação burguesa, existe um outro fator que, a despeito da sua profunda importância, fora mencionado apenas superficialmente nas análises até então promovidas: a união entre os conselhos e a ditadura.
De acordo com o anarquista, esse casamento, já destinado ao divórcio, não podia “engendrar outra coisa senão a desesperadora monstruosidade que é a comissariocracia bolchevique”. Para Rocker não podia ser de outro modo, pois o sistema dos conselhos não suporta qualquer ditadura. “Nele se encarnam a vontade da base, a energia criadora dum povo, enquanto na ditadura reinam a coação de cima e a cega submissão aos esquemas de espírito de um diktat” (p.77).
Consistente com o que havia colocado Kropotkin em sua “Carta aos Trabalhadores do Ocidente”, Rocker acredita que na Rússia os socialistas estavam “aprendendo como não se deve implantar o comunismo”. Assim como o mestre, o pupilo inferia que a teoria de Lênin a respeito da necessidade de um regime ditatorial no período de transição até o desaparecimento da sociedade de classes lhe parecia assaz falsa. Pois, embora a ditadura pudesse destruir uma sociedade , jamais poderia ser útil para criar uma, algo que só os conselhos, com seu aspecto construtivo, poderiam fazer.
E antevendo as críticas que poderia receber, Rocker afirma que a hipótese segundo a qual a ditadura do proletariado constitui um caso a parte, por se tratar da ditadura de uma classe, não merece nem sequer refutação, pois não passa de um sofisma para enganar tolos. “É inconcebível”, afirmava ele, “falar em ditadura de uma classe, visto que se trata sempre, no final das contas, de um certo partido, que se pretende falar em nome da classe”(p.90).
Para além da substituição dos conselhos livres por órgãos estatais, a ditadura bolchevique deu início a uma processo de perseguição a todos os revolucionários não comunistas, que ironicamente eram, em sua quase totalidade, defensores do sistema de conselhos. Se antes, estes eram a glória da revolução, agora não passavam de traidores a serviço do capitalismo internacional.
“Dessa suficiência autoritária de um pequeno grupo que busca encobrir sua sede de poder” (p.46) resultou a destruição da comuna autogestionária de Makhno na Ucrânia em 1918; a repressão aos marinheiros de Kronsdat em 1921 e o encarceramento e assassínio dos anarquistas, sindicalistas, socialistas revolucionários ou de qualquer outra corrente da esquerda que ousasse reivindicar o fim da comissariocracia do partido e uma maior atuação dos conselhos na construção do socialismo.
Após o findar do período do “Comunismo de Guerra”, os conselhos já se encontravam totalmente destituídos da sua autonomia e completamente privados dos seus autênticos defensores. Segundo Rocker, esse foi o primeiro passo para que a guinada da política de Lênin rumo a direita se realizasse por inteiro. “Pois, com a implementação da Nova Economia Política surgiu à crença de que seria preciso “fazer com que o capitalismo fosse dirigido nas águas do capitalismo de Estado”, já que “o socialismo só poderia se desenvolver a partir deste” (p.454).
Comparando a Revolução Francesa com a Revolução Russa, Rocker lembra com propriedade que a política de Robespierre conduziu a França a ditadura militar de Luis Napoleão Bonaparte. “Mas” questiona Rocker “ a que abismo a política de Lênin e seus camaradas conduzirá a Rússia?” (p.39).
Embora o nosso autor não pudesse ainda responder essa pergunta, haja vista que o seu livro havia sido escrito no calor no dos acontecimentos, ele pressentia com uma intuição quase certeira que esse abismo não poderia ser outro senão o totalitarismo estalinista.
Para concluir essa resenha gostaria de me ater a dois aspectos do livro de Rocker: o historiográfico e o político.
O primeiro está relacionado ao fato que graças a livros como o de Rocker, a historiografia pôde ir alé m da interpretação dada pelos partidos políticos que se pretendiam os donos da verdade científica e, com isso, mostrar o outro lado da Revolução Russa: a atuação dos conselhos operários. O segundo se vincula a constação de que assim como aconteceu na Revolução Russa, hoje em dia a esperança de mudar o mundo não pode vir de cima, por meio do Estado, até mesmo por que esse se mostra incapaz de fazê-lo. Essa esperança deve vir de baixo, através das próprias organizações que os movimentos sociais contemporâneos têm demonstrado a capacidade de criar.
Sob este duplo aspecto, o livro “Os Sovietes Traídos pelos Bolcheviques” permanece ainda extremamente atual.

Notas
*Resenha originalmente publicada em Eidos info-zine, Patos de Minas, nº22, Jan, 2010. Disponível em:http://wwweidosinfozine.blogspot.com/2010/01/eidos-info-zine-22_25.html  

Thiago Lemos Silva é mestrando em História pela UFU ( Universidade Federal de Uberlândia); membro do Coletivo Mundo Ácrata e co-editor da revista de cultura política libertária Eidos info-zine.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

I CURSO LIVRE DE ANARQUISMO – TERCEIRO MÓDULO: Piotr Kropotkin –

O Coletivo Mundo Ácrata convida todos a participarem de seu I CURSO LIVRE DE ANARQUISMO – TERCEIRO MÓDULO: Piotr Kropotkin –

O objetivo do curso é a discussão conjunta dos pensamentos, conceitos e práticas anarquistas "básicos", partindo de seus "clássicos". Convidamos todos aqueles que se interessem pelo tema, mesmo que não tenham qualquer estudo ou contato anterior com o anarquismo. Não é necessária a inscrição prévia ou qualquer tipo de pagamento; não é necessário ter participado do Primeiro e Segundo Módulo para cursar este. Haverá emissão de certificado.

INFORMAÇÕES DO TERCEIRO MÓDULO: PIOTR KROPOTKIN
→Datas:

•1° Encontro: 09/04 (Textos base: “Ajuda Mútua Entre Os Selvagens” In: Ajuda mútua e “Comunismo e Anarquia” In: O princípio anarquista e outros ensaios)

•2° Encontro: 30/04 (Textos base: "As Necessidades do Luxo" e "O Salariado  Coletivista" In: A conquista do pão e “Espírito de Revolta” In: Palavras de um revoltado)

*Texto complementar para os dois encontros: (“O que é anarquismo?”, de Nicolas Walter)

→Textos disponíveis na pasta 58, “Curso livre de anarquismo”, na Copiadora Formato (Segismundo Pereira, saída da biblioteca)

→Todos os encontros serão realizados aos sábados, às 14:00 h, sala 1H235, Campus Santa Monica/UFU.

 Uberlândia-Minas Gerais

NA OCASIÃO DOS ENCONTROS, A DISTRIBUIDORA MUNDO ÁCRATA ESTARÁ PRESENTE,COM LIVROS DE INTERESSE LIBERTÁRIO E ANARQUISTA DAS EDITORAS IMAGINÁRIO, FAÍSCA E OUTRAS. MAIS INFORMAÇÕES COLETIVOMUNDOACRATA@GMAIL.COM

sexta-feira, 25 de março de 2011

Distribuidora de Livros


O Coletivo Mundo Ácrata anuncia que está atuando também como distribuidora de livros anarquistas e libertários em geral. Nosso objetivo com essa iniciativa é contribuir com a propaganda e divulgação do pensamento ácrata na região, uma vez que o acesso a esse tipo de literatura costuma ser difícil através de livrarias convencionais.
Os valores arrecadados com a venda dos livros serão destinados totalmente à manutenção das atividades do próprio Coletivo, como impressões de cartazes, fotocópias, custeio de materiais de eventos etc.
Estaremos presentes em eventos que se mostrem abertos à diversidade de pensamento, inicialmente em nossas principais bases: Uberlândia e Patos de Minas. Aos interessados de toda a região que desejarem também conhecer a história, filosofia, arte e política anarquistas e libertárias, enviamos também os livros pelo correio.
Contato: coletivomundoacrata@gmail.com
Seguem a lista e valores dos livros disponíveis      


“BOA EDUCAÇÃO, A”: EXPERIÊNCIAS LIBERTÁRIAS E TEORIAS ANARQUISTAS NA EUROPA, DE GODWIN A NEILL – VOLUME 1: A TEORIA
Francesco Codello * R$ 68,00 * 416 páginas * Imaginário / Ícone
HISTÓRIA DO MOVIMENTO OPERÁRIO REVOLUCIONÁRIO
Eduardo Colombo / Daniel Colson / Alexandre Samis / Maurizio Antonioli / Frank Mintz / Cláudio Venza / Rudolf De Jong / Larry Portis / Francisco Madrid / Marianne Enckell / Phillippe Pelletier * R$ 56,00 * 354 páginas * Imaginário
 ESTATISMO E ANARQUIA
Mikhail Bakunin * R$ 45,00 * 267 páginas * Imaginário
PALAVRAS DE UM REVOLTADO
Piotr Kropotkin * R$ 45,00 * 278 páginas * Imaginário
REVOLUÇÃO RUSSA, A
Maurício Tragtenberg * R$ 22,00 * 176 páginas * Faísca
INSTRUIR PARA REVOLTAR – Fernand Pelloutier e a Educação
Gregory Chambat * R$ 26,00 * 112 páginas * Faísca

ANARQUISMO SOCIAL, O
Frank Mintz * R$ 20,00 * 96 páginas * Imaginário / Faísca / Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) / Coletivo Anarquista Terra Livre

ANARQUISMO, OBRIGAÇÃO SOCIAL E DEVER DE OBEDIÊNCIA
Eduardo Colombo * R$ 18,00 * 91 páginas * Imaginário

 ANÁLISE DO ESTADO / O ESTADO COMO PARADIGMA DE PODER
Eduardo Colombo * R$ 18,00 * 85 páginas * Imaginário

ESSENCIAL PROUDHON, O
Francisco Trindade * R$ 18,00 * 92 páginas * Imaginário

BAIRRO, A COMUNA, A CIDADE... , O – ESPAÇOS LIBERTÁRIOS (ESGOTADO)
Murray Bookchin / Paul Boino / Marianne Enckel * R$ 18,00 * 95 páginas * Imaginário

ESTADO E SEU PAPEL HISTÓRICO, O
Piotr Kropotkin * R$ 18,00 * 95 páginas * Imaginário

ANARQUIA – SUA FILOSOFIA, SEU IDEAL, A
Piotr Kropotkin * R$ 18,00 * 93 páginas * Imaginário

ESCRITOS CONTRA MARX
Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 133 páginas * Imaginário

BAKUNIN, FUNDADOR DO SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO
Gaston Leval * R$ 20,00 * 96 páginas * Faísca / Imaginário

DEUS E O ESTADO
Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 95 páginas * Imaginário

CATECISMO REVOLUCIONÁRIO / PROGRAMA DA SOCIEDADE DA REVOLUÇÃO INTERNACIONAL 
Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 96 páginas * Imaginário e Faísca

IDÉIA DOS SOVIETES, A
Pano Vassilev * R$ 18,00 * 88 páginas * Imaginário/Faísca

ENGANADORES / A POLÍTICA DA INTERNACIONAL / AONDE IR E O QUE FAZER?, OS
Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 96 páginas * Imaginário/Faísca

ANARQUIA, A
Errico Malatesta * R$ 18,00 * 95 páginas * Imaginário

INSTRUÇÃO INTEGRAL, A
Mikhail Bakunin * R$ 18,00 * 94 páginas * Imaginário

NESTOR MAKHNO E A REVOLUÇÃO SOCIAL NA UCRÂNIA
Nestor Makhno / Alexandre Skirda / Alexandre Berkman * R$ 18,00 * 95 páginas * Imaginário

RACIONALISMO COMBATENTE, O
Ramon Safon R$ 18,00* 95 páginas * Imaginário

insubmissão, A
Leon Tolstoi *R$ 18* 95 páginas * Imaginário

revolução Mexicana, A
Ricardo Flores Magon *R$ 18* 95 páginas * Imaginário

NIILISMO SOCIAL, O
Fabrício Monteiro *R$ 18,75 *106 páginas* Annablume


ciência e a questão vital da revolução, A
Mikhail Bakunin  * R$18,00 *96 páginas * Faísca/Imaginário

segunda-feira, 14 de março de 2011

CURSO LIVRE DE ANARQUISMO – SEGUNDO MÓDULO: MIKHAIL BAKUNIN


O Coletivo Mundo Ácrata convida todos a participarem de seu I CURSO LIVRE DE ANARQUISMO – SEGUNDO MÓDULO: MIKHAIL BAKUNIN.O objetivo do curso é a discussão conjunta dos pensamentos, conceitos e práticas anarquistas "básicos", partindo de seus "clássicos". Convidamos todos aqueles que se interessem pelo tema, mesmo que não tenham qualquer estudo ou contato anterior com o anarquismo.
Não é necessária inscrição prévia ou qualquer tipo de pagamento; não é necessário ter participado do Módulo I para cursar este Módulo.
Sim, haverá emissão de certificado.

INFORMAÇÕES DO SEGUNDO MÓDULO: MIKHAIL BAKUNIN

Datas:
1° Encontro: 19/03 (Texto base: “Catecismo revolucionário” – Milkhail Bakunin)
2° Encontro: 26/03 (Texto base: “A ciência e a questão vital da revolução”– Mikhail Bakunin)

Texto complementar para os dois encontros: (“A construção da 'teoria' social como construção de relações sociais: o materialismo histórico de Mikhail Bakunin” – Fabrício Monteiro)

Textos disponíveis na pasta “Curso livre de anarquismo” no Xerox do Bloco 5O.

Todos os encontros serão realizados aos sábados, às 14:00 h, sala1H235, Bloco H, Campus Santa Mônica, Universidade Federal de Uberlândia
Uberlândia Minas Gerais.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Encuentro iberoamericano: Cultura y práctica del anarquismo, desde sus orígenes hasta La Primera Guerra mundial 23 y 24 de marzo de 2011

 

Coordinan:Clara E. Lida (Colmex) y Pablo Yankelevich (ENAH) Miércoles, 23 de marzo de 2011

10:00 10:30 Inauguración
MESA 1 Modera: Clara E. Lida (Colmex)
11:00-11:45 Manuel Morales Muñoz (Universidad de Málaga), Rituales, símbolos, y valores en el anarquismo español, 1870-1910
Comenta: Javier Navarro (Universidad de Valencia)

11:45- 12:30 Álvaro Girón (CSIC, Barcelona), Una historia contada de otra manera: librepensamiento y darwinismos anarquistas en España (1869-1910)
Comenta: Dora Barrancos (Universidad de Buenos Aires-Conicet)

12:30-13:30 DISCUSIÓN


MESA 2 Modera: Mario Barbosa (UAM-C)
16:30-17:15 Juan Suriano (Universidad Nacional de San Martín, Buenos Aires), Las prácticas culturales del anarquismo argentino
Comenta: José Moya (Columbia University)

17:15-18:00 Sergio Grez (Universidad de Chile), ¿Teatro ácrata o teatro obrero? Chile, 1895-1927
Comenta: Francisco Zapata (Colmex)

18:00-18:45 Jacinto Barrera Bassols (DEH-INAH), La biblioteca de
Regeneración y sus redes de difusión internacionales: 1900-1918
Comenta: Barry Carr (La Trobe University, Melbourne)

18:45- 19:45 DISCUSIÓN


Jueves, 24 de marzo de 2011
MESA 3 Modera: Ariel Rodríguez Kuri (Colmex)

10:00-10:45 Amparo Sánchez Cobos (University of Windsor, Ontario),
Sociabilidad anarquista y configuración de la identidad obrera en
Cuba tras la independência
Comenta: Joan Casanovas (Universidad Rovira y Virgil, Tarragona)

10:45-11:30 Jacy Alves de Seixas (Universidade Federal de Uberlândia,
Minas Gerais), Acerca do militante anarquista: sensibilidade, cultura
e ética política (Brasil, 1890-1920)
Comenta: Guillermo Palacios (Colmex)

11:30-12:15 Ricardo Melgar (INAH), El anarquismo y la cultura de las clases y minorías subalternas en el Perú
Comenta: Pablo Yankelevich (ENAH)

12:15-13:15 DISCUSIÓN

13:15- 14:30 BRINDIS


SEDE:EL COLEGIO DE MÉXICO Salón 5524 (último piso)Camino al Ajusco 20Col. Pedregal de Sta. Teresa

LA ENTRADA DE TODAS LAS SESIONES ES LIBRE SE EXTENDERÁ UN DIPLOMA DE ASISTENCIA A QUIENES ESTÉN PRESENTES EN TODAS LAS SESIONES DEL ENCUENTRO

Directores de la Cátedra México-España:
Clara E. Lida (Colmex) y Tomás Pérez Vejo (ENAH-INAH) http://catedramexesp.colmex.mx/


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011



CELIP (Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres) convida para a atividade:

"Tecnopolítica e Anarquismo" - 19/02 - Sábado, 14h!

Cada vez mais utilizamos as novas tecnologias para nos comunicar. mas o que acontece quando usamos ferramentas criadas e administradas porgrandes empresas? Você sabia que o youtube passa a ser dono dos vídeos que você publica lá? Que o gmail passa seus dados privados para a polícia, caso seja solicitado? Que o facebook pode apagar a tua conta e os teus contatos se descobre que você não usou seu nome verdadeiro ou que usa a sua conta com fins politicos?

Venha discutir estas questões e conhecer que alternativas temos, este sábado dia 19/02, as 14h, na Biblioteca Social Fábio Luz.

Rua Torres Homem 790 - Vila Isabel
Perto do final do Boulevard 28 de Setembro e da Escola de Samba Vila Isabel

# ônibus: 232, 433, 222, 438, 638, 269
# metrô: integração Vila Isabel
# trem: estação Maracanã e descer até o final da 28 de Setembro

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A objeção de consciência nos escritos de Maria Lacerda de Moura*


Maria Lacerda de Moura teve uma trajetória de vida singular, pois trocou experiências com organizações anticlericais, femininas/feministas, anarquistas e comunistas, o que lhe proporcionou um olhar crítico sobre a realidade vivenciada. Defendeu a educação enquanto meio de emancipação humana, lutou contra o fascismo, contra a guerra, o analfabetismo, o clericalismo, e principalmente contra a submissão da mulher ao homem e da humanidade ao capitalismo.
Em Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura, Miriam Leite registra a história dessa mulher. Nasceu em Manhuaçu/MG, em 16 de maio de 1887. Seu pai foi Modesto de Araújo Lacerda e, sua mãe, Amélia de Araújo Lacerda, ambos adeptos do anticlericalismo.
Deslocou-se com a família para Barbacena/MG em 1891, onde se tornou professora e casou-se, aos 17 anos de idade, com Carlos Ferreira de Moura. Como não podia ter filhos, adotou Jair em 1912, um sobrinho, e Carminda, uma órfã carente. Nesse período, Maria Lacerda trabalhou intensamente com a questão da educação e, em Barbacena, ajudou a fundar a Liga contra o Analfabetismo (1912). Seguiu realizando conferências e publicando os livros Em torno da Educação (1918) e Renovação (1919).
Em 1921 mudou-se para São Paulo e interou-se de questões importantes para a sua vida intelectual e militante; momento de engajamento na luta pela emancipação da mulher. Maria Lacerda de Moura e algumas militantes anarquistas - Matilde Magrassi, Isabel Cerruti, Josefina Stefani, Maria Antonia Soares, Maria Angelina Soares, Maria de Oliveira e Tibi - fundaram a Federação Internacional Feminina. A proposta da Federação era discutir questões relativas à mulher e à criança com vistas a transformar as relações estabelecidas na sociedade capitalista. As militantes questionavam a educação formal, as condições de trabalho, a subjugação da mulher aos dogmas católicos, o sistema representativo e a estrutura estatal.
Ainda em São Paulo, após contato com os movimentos femininos e operários, Maria Lacerda publicou alguns trabalhos como a revista Renascença em 1923, os livros A mulher é uma degenerada? (1924) e Religião do Amor e da Belleza (1926). Obras que tratam da emancipação feminina, maternidade consciente, educação e revelam os posicionamentos da autora sobre o papel da mulher na sociedade.
Entre 1928 e 1937, período de amadurecimento de idéias e engajamento na luta contra o fascismo, a guerra e o clericalismo, viveu em “Guararema”, na chácara D. Maria Lacerda, comunidade anarquista de cunho individualista onde cada um deveria responsabilizar-se pelo seu próprio sustento, ao contrário de outros agrupamentos coletivos como a Colônia Cecília. O grupo era formado por espanhóis, italianos e franceses objetores de consciência da Primeira Guerra mundial.
Muito produtiva, publicou no jornal O Combate a partir de 1928 e realizou conferências para a Internacional do Magistério Americano em Buenos Aires no ano de 1929. Lançou os livros Civilização - tronco de escravos (1931); Amai e ... não vos multipliqueis (1932); Serviço militar obrigatório para a mulher? - Recuso-me! Denuncio! (1933); Clero e fascismo - horda de embrutecedores (1934); Fascismo - filho dilecto da Igreja e do Capital (1934).
Durante o Estado Novo, a comunidade de Guararema foi reprimida pelo governo Getúlio Vargas, fazendo com que Maria Lacerda de Moura voltasse para Barbacena/MG em 1937, onde sofreu grande discriminação pelo seu histórico de luta. No ano seguinte, foi viver no Rio de Janeiro/RJ e trabalhou na Rádio Mairinque Veiga. Maria Lacerda dedicou-se ao estudo da astrologia nesse período, e sua última conferência foi realizada no Rio de Janeiro, em 1944. Faleceu em 1945, aos 58 anos de idade.
A noção de objetar de consciência aparece nos textos da autora como uma postura de vida a ser adotada, ou ainda, uma escolha pela liberdade. O indivíduo livre pensa autonomamente porque é capaz de mediar experiências coletivas marcadas pela opressão e pela coerção. Nesse sentido, a educação libertadora foi defendida como meio para alcançar autonomia. O indivíduo adquiriria condições de pensar livremente na medida em que tivesse referências e parâmetros de mundo que os tornasse apto a mediar idéias e práticas compartilhadas socialmente.
A defesa da liberdade de pensamento levaria à liberdade do indivíduo, ao exercício de livre consciência, à emancipação humana. A objeção de consciência se dava no momento de rebeldia do indivíduo frente aos valores impostos pelas instituições coercitivas da sociedade: Estado, família e Igreja.
A ativista difundiu a necessidade da auto-educação, assim como a construção de parâmetros de vida pautados na solidariedade e no respeito mútuo. Em seus argumentos, a mulher tinha papel fundamental na transformação humana, pois uma mãe consciente de si seria propulsora dos novos valores na sociedade. Nesse sentido, Maria Lacerda defendeu a emancipação feminina tendo como princípio o domínio do próprio corpo pela mulher, o que implicava no autoconhecimento e na recusa às imposições morais e religiosas. A maternidade consciente engendraria um conjunto de valores e comportamentos libertos das amarras sociais, pois a mulher conhecedora do próprio corpo, autônoma em seus sentimentos, estaria mais bem preparada para a escolha do pai de seu filho e saberia o momento oportuno de ser mãe. Maria Lacerda entendia que a transformação da condição feminina significava um “elo” para a emancipação humana.


Perguntam-me o que penso a respeito da emancipação feminina. Para mim, é mais um élo da emancipação humana.
A organização social de prejuízos e privilégios, baseada no capital e no salário, na exploração do homem pelo homem, civilização industrial-burgueza, nunca emancipará nem ao homem (...) á mulher.
Dentro da sociedade capitalista a mulher é duas vezes escrava: é a “protegida”, a tutelada, a “pupilla” do homem, a criatura domesticada por um “senhor” cioso, e, ao mesmo tempo, é escrava social de uma sociedade baseada no dinheiro e nos privilégios mantidos pela autoridade do Estado e pela força armada para defender o poder, a autoridade, a propriedade privada, o patriotismo monetário. (MOURA, Maria Lacerda de. A Emancipação Feminina. O Combate, São Paulo, n. 4604, p. 3, 12/01/1928).


A condição duplamente escrava da mulher só seria desmobilizada com a superação das desigualdades sociais. O combate aos privilégios de classe e à domesticação da mulher era parte de um único projeto: desconstrução de estratégias de dominação utilizadas pelas elites políticas e econômicas brasileiras.
O discurso da desigualdade entre classes está explícito no texto de Maria Lacerda que entendia a possibilidade de mudança através do esforço individual e da auto-educação, por meio do objetar de consciência. Tendo em vista sua postura individualista, a autora acena para a necessidade da autocrítica das mulheres no sentido de adotarem um posicionamento autônomo perante as pressões sociais. Propunha, então, que as mulheres desprezassem as maledicências e reivindicassem sua liberdade. Uma vez que a sociedade era fruto de relações desiguais, a única forma de sair desse círculo vicioso seria buscar a independência econômica e a liberdade sexual.
Contrariando o direcionamento dado pelo movimento feminista sufragista, a autora travou um embate com as feministas, principalmente no que diz respeito à luta pelo direito do voto. Maria Lacerda foi enfática ao afirmar a necessidade do domínio sobre o próprio corpo ao invés de canalizar energias para luta político-institucional, uma vez que entrar nas estruturas do Estado significava compactuar com um sistema que gerava a pobreza e a ignorância.


Só podemos aspirar ao progresso moral de cada individuo, considerando como unidade.
Nesse caso, a mulher tem de proceder como os individualistas livres, se tem caracter, dignidade, se reivindica o direito de viver, o direito de criatura, de ser humano.
A mulher terá de deixar as suas tolas, infantis reivindicações civis e políticas – para reivindicar a liberdade sexual, para ser dona do seu próprio corpo.
É a única emancipação possível dentro da civilização – mercado humano, tronco de escravos.
Emancipar-se economicamente ou ganhar a vida pelo seu trabalho e emancipar-se pela liberdade sexual. (MOURA, Maria Lacerda de. A emancipação feminina. O Combate, São Paulo, n. 4604, p. 3, 12/01/1928).


Um dos livros escritos na comunidade de Guararema (MOURA, Maria Lacerda de. Ferrer o Clero Romano e a Educação Laica. São Paulo, Editorial Paulista, 1934), propõe uma série de reflexões da autora sobre Estado, fascismo e a não-violência. “Para educar, é preciso ter-se educado a si proprio, na tortura gloriosa do dominio das paixões e do espirito de autoridade” (p.88).
O ser humano livre é aquele que se coloca acima dos dogmas difundidos pela família, Estado e religião. A negação das instituições e valores domesticadores consistia no que a autora denominou objetar de consciência. Ser objetor de consciência significa posicionar-se contrário ao que se convencionou considerar inquestionável, a começar pelos sistemas políticos e religiosos que permanecem vigentes.
Em Guerra à guerra (MOURA, Maria Lacerda de. Guerra á guerra. O Combate, São Paulo, n. 4560, p. 3, 19/11/1927), Maria Lacerda falou sobre a atitude de um francês que não se alistou ao serviço militar obrigatório e acabou sendo preso em conseqüência de sua insubmissão. O artigo foi publicado em 1927 e Chevé argumentava que havia presenciado os horrores da 1º Guerra Mundial quando criança, se recusando a alistar-se nas fileiras da morte. A atitude desse homem teve grandes repercussões no mundo, tornando-se notícia na imprensa livre.
A postura de Georges Chevé representava a possibilidade de ser livre e estar acima das pressões sociais. O francês optou pela liberdade, mesmo que seu corpo fosse encerrado numa cela. Do que vale um corpo livre quando a mente está presa? Manter o corpo livre significava, naquelas circunstâncias, colocá-lo a serviço da morte. Ser livre era estar preso. O indivíduo recusou-se à humilhação. Chevé não se permitiu ser domesticado, segundo Maria Lacerda.
O sentimento de humilhação é forjado numa relação desigual na qual uma das partes (individual ou coletiva) é a agressora e a outra, vítima de agressão (ANSART, 2005). Uma situação de humilhação gera dor, sofrimento, sensação de inferioridade e ofensa. Ao sentir-se ofendido o indivíduo é atingido em sua honra, pois honrado é aquele que não se subjuga. Várias são as experiências humanas de humilhação e a recusa a essas situações consiste na afirmação de si.
A recusa a pactuar com aquilo que é baixo, a se inclinar diante de uma situação humilhante, é um dos três sentidos da honra como nos mostra Febvre. A recusa implica em preservar a dignidade na desventura, em manter-se fiel àquilo que se é, à sua identidade pessoal. A honra é também uma sensibilidade muito viva “às diminuições de que nossa pessoa possa ser vítima, um grande sentimento de beleza da própria vida, que implica obrigação de tudo fazer para que ela não seja pisoteada, de apagar qualquer humilhação.” E no seu terceiro sentido, a honra é uma força de ação, que engaja, sem hesitação, o homem na ação. É uma espécie de escudo que barra as impurezas que são colocadas diante de nós. (LOPREATO, 2005, p.249).


Georges Chevé afirma a si mesmo quando se nega a uma situação de humilhação, quando não se submete ao serviço militar, à violência e ao poderio do Estado. A atitude de Chevé deveria ser adotada por todos, segundo Maria Lacerda, com vistas à construção de uma nova sociedade. Num momento em que o fascismo se impunha na Itália e influenciava o Brasil com projetos homogeneizantes, a recusa às imposições do Estado era uma reação à domesticação.
Serviço militar obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio! também foi produzido quando da luta de Maria Lacerda contra o fascismo. É resultado de uma conferência realizada em 1932 a pedido da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro. O livro foi publicado em 1933, com Getúlio Vargas no poder. A autora já havia adotado uma postura política radical e realizava ferrenhas críticas a um Estado autoritário e dilacerante que dissolvia o indivíduo, matando o seu poder de criação e de intervenção.
A preocupação da autora era denunciar os mecanismos de poder de uma conjuntura política delicada no Brasil e no mundo, tendo em vista que o fascismo influenciava nosso país na década de 1930. O Estado italiano investia na militarização da população, incitava a violência e adotava uma educação religiosa. O nacionalismo e o patriotismo eram cultivados pela Igreja e pelo Estado.
O livro de Maria Lacerda sobre o serviço militar trata dos horrores causados por guerras. Um projeto de lei da época visava tornar obrigatório o serviço militar para ambos os sexos no Brasil. A autora realizou reflexões de negação à proposta apresentada e alistou-se à Internacional dos Resistentes a Guerra, associação de pensadores contrários à guerra e à violência.
A necessidade de se implementar o serviço militar obrigatório já era defendida por Olavo Bilac em 1915 (LUCA 1999). Os homens convocados para servirem à pátria seriam os responsáveis pela defesa do território nacional se necessário, e sacrificariam suas vidas em nome das fronteiras brasileiras. No entanto, este anteprojeto de Constituição trazia uma novidade: a obrigatoriedade do serviço às mulheres.


Pode-se afirmar, desde já, que o serviço militar será obrigatório para todo brasileiro que completar 21 anos”. Quanto a essa parte, na futura Constituição haverá um pormenor interessante: “As mulheres também serão obrigadas ao alistamento militar para que possam ficar integralizadas na comunhão político-social. Uma vez chamadas, serão distribuídas pelos diversos serviços auxiliares, como a Cruz Vermelha, Administração, Arsenais, etc. (MOURA, Maria Lacerda de. Serviço militar obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio! Guarujá/SP: Editora Opúsculo Libertário, 3ª reedição, p.:19, 1999.)


Para a autora esse projeto de lei explicitava o abuso de poder que o Estado imprimia sobre a população. Segundo Maria Lacerda, o Estado é responsável pela morte do indivíduo. Este é absorvido por uma instituição autoritária que se coloca como representante do todo, mas defende os interesses de uma elite. Os servidores da pátria são, portanto, defensores de uma classe privilegiada entregue ao imperialismo.
A relação do governo de Vargas com o fascismo na Itália, segundo Maria Lacerda, estava na subjugação do indivíduo pelo Estado, na perda da liberdade individual. A disciplinarização dos indivíduos e dos movimentos populares se dava pelo conjunto de leis elaboradas pelo Estado, burocracia criada para servir de mediação entre patrão e empregados. O Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, criado em 26 de novembro 1930 (decreto nº 19.433), representava o controle sobre os trabalhadores que se encontravam à mercê das regras ditadas pelo mercado.
Maria Lacerda apontava o caráter subserviente da elite brasileira frente aos interesses estrangeiros, o que tornava questionável a postura nacionalista tão propagada pelo governo. A autora buscava alertar o leitor para o fato do discurso em favor da pátria representar um meio de manter a população envolvida pela idéia de civismo, enquanto os grupos mais favorecidos abriam espaço à exploração estrangeira.
O Brasil, segundo Lacerda de Moura, esteve à mercê do poder colonizador e imperialista, herdando uma cultura fortemente autoritária perceptível em diversos âmbitos sociais. Este país que foi construído de forma truculenta, a partir de um processo de exploração e desrespeito aos povos originários, havia aprendido a conviver com o chicote do feitor.
Maria Lacerda afirmava: “Há só um caso em que me posso tornar patriota, nacionalista: é quando os interesses humanos se confundem com os interesses nacionais” (MOURA, Maria Lacerda de. Clero e Estado. RJ: Editora Liga Anti-Clerical, 1931, p.4). Os interesses nacionais deveriam, portanto, acompanhar os interesses dos indivíduos, fortalecer a dignidade humana, estabelecer uma convivência pacífica e igualitária onde reinasse a liberdade de ação e de pensamento.
A proposta de serviço militar obrigatório para homens e mulheres sustentava o projeto bélico do Estado nacionalista, de acordo com a autora. Um Estado forte o era pelo seu potencial de destruição; nesse sentido, as medidas governamentais objetivavam fortalecer o exército.
Entendidos como mecanismos de controle social, família, Estado e religião aparecem no discurso lacerdiano como causadores de ignorância e domesticação. A palavra domesticar é explorada em vários textos, revelando um estilo incisivo e direto de escrita. Maria Lacerda era avessa às instituições controladoras – posicionamento que demonstra sua opção pela anarquia: a busca da liberdade de pensamento e de ação. Domesticar o ser humano é anulá-lo obrigando-o a se curvar perante um mundo conflituoso e marcadamente injusto. A necessidade de se opor à domesticação era tarefa difícil, desempenhada por poucos.
Ser um objetor de consciência significava buscar novas formas de sociabilidade que tivessem como único interesse o amor entre os indivíduos. Cultivar amor à pátria e morrer por ela seria uma forma de negar-se como ser humano, negar sua consciência em nome de um Estado que mantém privilégios de classe. Cultivar amor à família significava manter-se preso a uma estrutura de poder na qual um sobrenome determina a origem e a formação do indivíduo. Cultivar o amor à Igreja era, sobretudo, manter-se ligado a uma instituição que historicamente esteve ao lado do Estado e do Capital, difundindo valores repressores e mantenedores do status quo.
Muitos de seus textos apontam para a necessidade de se entender a vida para além da razão. A religião, segundo a autora, não respondia a esses anseios, ao contrário, representava mais uma forma de prisão num mundo marcado pela violência, corrupção, ódio e descaso com o próximo. Maria Lacerda reivindica o direito de pensar no transcendental sem que isso fosse confundido com superstição ou religião, como podemos perceber no texto a seguir:


A razão não tem o direito de sufocar o sonho.
Reduzir a inquietude a preconceito religioso é um crime e um preconceito mais vulgar. Metafisica não é religião.
A religião é muleta para os fracos e ignorantes. Não basta, não satisfaz à curiosidade dos que já escalaram mais alto.
Tambem a ciencia oficial nada póde explicar das cousas transcendentais. Paira à superficie. Cultiva o preconceito do saber absoluto. E não responde às nossas interrogações, à inquietação do nosso espirito insatisfeito. (MOURA, Maria Lacerda de. Ferrer, o Clero Romano e a Educação Laica. S.P, Editorial Paulista,1934, p.58.


O discurso acima revela um aspecto – talvez – comum às pessoas que se dedicam às grandes causas políticas. Ao apresentar sua crítica frente à organização social vigente o faz num tom implacável, visceral. Sua escrita nos dá pistas de como manteve suas convicções a despeito das críticas e repressões sofridas – a autora fala dos sonhos. O direito de sonhar e investir num futuro diferente, numa nova sociedade.
Ao reivindicar a possibilidade de pensar o mundo para além da superstição e da razão e, ao reivindicar o direito de sonhar, Maria Lacerda nos coloca questões importantes que dizem respeito aos projetos individuais. As muletas religiosas, as leis humanas – representadas pelo Estado – e a supervalorização da razão contribuem para a inércia individual e supressão dos sonhos. A inquietude humana frente à vida e todos os “fantasmas” que circundam o mistério do viver fazem parte da essência humana. A ativista chamava atenção dos leitores para essa questão, já que acreditava na possibilidade dos seres humanos criarem outras formas de sociabilidade baseadas no sentimento de amor e solidariedade. O direito de sonhar leva à ação – daí o conteúdo revolucionário dos escritos lacerdianos.
Torna-se clara a associação entre a noção de objetar de consciência e liberdade se entendermos a objeção como negação ao instituído. O indivíduo que nega as leis impostas pelo Estado, os valores religiosos e da família burguesa, e assume posturas autônomas frente às questões que o interpelam, é um indivíduo livre. O direito de sonhar com o novo só é dado àquele que se opõe às convenções. Extinguir o governo, a propriedade privada e a desigualdade entre classes para conquistar a liberdade.
Segundo Kropotkin, o” homem para ser livre precisa se libertar do capitalismo e do Estado que o sustenta” (LOPREATO, 2003, p 572). O anarquista defensor da liberdade, da solidariedade e do indivíduo argumentava sobre os malefícios causados pela coerção do Estado e apostava na destruição dessa instituição, bem como na reinstauração de valores pautados no princípio de ajuda mútua. A negação dos mecanismos de controle sobre o indivíduo e o exercício de objeção de consciência levaria à liberdade.
Maria Lacerda de Moura apostou em sua ação discursiva e acreditou na possibilidade de sonhar com o “novo”. Passou por vários processos em seu amadurecimento intelectual até chegar à noção de objeção de consciência. A defesa da ativista era um alerta quanto às posturas políticas adotadas pela maioria da população. Ao leitor do século XXI cabe refletir sobre as críticas dos libertários acerca da família, Estado e religião. Em que medida os debates promovidos pelos anarquistas nos colocam questões do presente?
A defesa da objeção de consciência incomoda a todos nós, pois nos faz pensar nos posicionamentos e escolhas tomados ao longo de nossas vidas. Na maioria das vezes, quando nos deparamos com algumas encruzilhadas, optamos por atender às expectativas familiares, profissionais ou religiosas, negando nossos desejos pessoais. O alerta da anarquista se direciona às pessoas que se deixam “engolir” por sentimentos ditos “coletivos” quando, na verdade, acabam transformando-se em máquinas e obedecendo a comandos. Essa reflexão, a meu ver, é primordial aos indivíduos de ontem e de hoje.


Jussara Valéria de Miranda é mestra em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU); professora da rede estadual de ensino em Limeira, SP e autora da dissertação “Recuso-me: Ditos e Escritos de Maria Lacerda de Moura”, defendida no ano de 2006.


Notas
*Artigo originalmente publicado em Eidos info-zine, Patos de Minas, nº22, Jan, 2010. Disponível em:http://wwweidosinfozine.blogspot.com/2010_01_01_archive.html




Referências


ANSART, Pierre. As humilhações políticas. In: MARSON, Izabel e NAXARA Márcia (org.). Sobre a humilhação. Sentimentos, gestos, palavras. Uberlândia EDUFU, 2005


LEITE, Míriam Lifchitz Moreira. Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura. SP: Ática, 1984


LOPREATO, Christina da Silva Roquette. Sobre o pensamento libertário de Kropotkin: liberdade, indivíduo, solidariedade. História & Perspectivas, Uberlândia, v. 27 e 28, jul./dez. 2002/ jan./jun. 2003, p 572


LOPREATO, Christina da Silva Roquette. O respeito a si mesmo: Humilhação e Insubmissão. In: MARSON, Izabel e NAXARA Márcia (org.). Sobre a humilhação. Sentimentos, gestos, palavras. Uberlândia EDUFU, 2005, p.24


LUCA, Tânia Regina de. Revista do Brasil: redespertar da consciência nacional. A revista do Brasil: um diagnóstico para a (n)ação. São Paulo: Editora da UNESP, 1999, pp.: 35-84


MOURA, Maria Lacerda de. Guerra á guerra. O Combate, São Paulo, n. 4560, p. 3, 19/11/1927


MOURA, Maria Lacerda de. A Emancipação Feminina. O Combate, São Paulo, n. 4604, p. 3, 12/01/1928


MOURA, Maria Lacerda de. Ferrer o Clero Romano e a Educação Laica. São Paulo, Editorial Paulista, 1934


MOURA, Maria Lacerda de. Serviço militar obrigatório para mulher? Recuso-me! Denuncio! Guarujá/SP: Editora Opúsculo Libertário, 3ª reedição, p. 19, 1999