sábado, 9 de fevereiro de 2013

Artes Marciais e Pedagogia Libertária



Ao longo desse tempo com o Mundo Ácrata (e antes, sozinho) venho tentando testar práticas da educação anarquista nas escolas em que trabalho. Muitas atividades deram certo, tendo uma boa participação e compreensão dos alunos, de alguns colegas e pais, outras nem tanto, como é de se esperar, causando estranhamento e alguns conflitos internos na escola.
   O problema é que de um tempo para cá (nos últimos dois anos, mais ou menos) a coisa vem estado cada vez mais difícil; estranha até. Onde antes eu conseguia criar um diálogo com os alunos e construir propostas em conjunto, está surgindo cada vez mais um problema de indisciplina que posso chamar de “bruta”, meio “animalesca”. Sei muito bem diferenciar a indisciplina como revolta dos alunos (revolta contra a escola, o professor, a sociedade em geral) e não é disso que estou falando. Cada vez mais vejo alunos que tentam sinceramente participar, construir a aula, mas que – alguns me dizem isso com todas as palavras! – eles mesmos não conseguem se controlar! É como se uma agitação interna, um grito incontrolável estivesse a todo tempo surgindo de seu interior, mesmo que racionalmente eles saibam que isso não é construtivo para eles. Mesmo atividades reconhecidas por eles como agradáveis (como os filmes, músicas, jogos etc.) são agora minadas por um número crescentes de colegas (muitos) que simplesmente não conseguem se concentrar ou não conhecem outros recursos de lidar com situações de conflito a não ser utilizando-se da violência (simbólica, verbal e física). E vocês sabem como isso é contaminante para os jovens.
   Isso não é algo que se resolve apenas com “esclarecimento”! Com puro diálogo (que já são, a priori, dolorosos de se estabelecer). Há algo anterior aí, algo mais visceral, animal, corpóreo. Algo mais ligado com uma relação consigo mesmo, que obviamente é construída com ajuda dos outros, mas que para esses alunos não foi elaborado de forma minimamente segura desde a primeira infância (problemas com os pais, ou falta deles; muita violência doméstica; muita violência social; muita falta de oportunidade para experimentar a concentração, a reflexão e a leitura – que basicamente é um voltar-se para si).
   Daí, como não sou psicólogo – e também não acho que somente a psicologia dá conta do recado – venho tentando pensar em um instrumento (entre inúmeros outros) que possa ajudar na construção dessa relação positiva consigo mesmo, e forçosamente, com isso, com os outros. Algo que parta desse visceral, do corpo e da mente bruta: veio-me a possibilidade do uso da arte marcial.
   Com amigos da área, criamos o Grupo de Estudos do Caminho Marcial Chinês (que na realidade não se restringe ao chinês, mas é de onde partimos pela nossa experiência). Vamos iniciar a experiência em uma academia aqui em Uberlândia antes de tentarmos partir para um público mais amplo, por exemplo, com escolas. Faremos aulas de kung fu juntamente com debates e discussões (abertos a todos, inclusive não-alunos da academia) sobre a filosofia, a ética, a história e a cultura marcial. Vocês vão perceber que a linguagem utilizada é bem diferente do que usamos nos textos e aulas da faculdade e escolas regulares ao falar, por exemplo, do anarquismo. A pedagogia aqui é diferente, mas o ideal da construção da autonomia  é o mesmo.
   Neste exato momento nosso desafio é abrir o diálogo com outros praticantes da cidade, propor união e apoio mútuo. Obviamente esse está sendo um trabalho bem difícil quando a maioria vê o “crescimento” da arte marcial apenas através da realização de campeonatos e eventos grandiosos que possam atrair a maior quantidade de alunos possível. Não como um Caminho (Tao), como conduta de vida.
   Acompanhem nossas atividades e esforços por nosso blog. É onde também estamos colocando os resultados de nossas pesquisas (temos uma pesquisa própria nesse momento). Principalmente: por favor, divulguem-no o máximo possível o blog e se aparecerem pessoas interessadas nas atividades (aulas de kung fu e/ou debates e pesquisa) estimulem a entrar em contato conosco!

Fabrício Pinto Monteiro é membro do Coletivo Mundo Ácrata, professor da educação básica da rede municipal de Uberlândia, doutorando em História na UFU e autor do livro  O niilismo social: anarquistas e terroristas no século XIX  ( Annablume,  2010)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

3ª FEIRA ANARQUISTA DE SÃO PAULO


A Biblioteca Terra Livre e o Ativismo ABC organizam a 3ª Feira Anarquista de São Paulo, dando continuidade as feiras anarquistas que vem ocorrendo em várias cidades do mundo.

Acontecerá, como na 2ª Feira Anarquista de São Paulo, uma mostra editorial e venda de livros, jornais, revistas, fanzines e outros materiais libertários. A Feira de São Paulo pretende reunir aseditoras libertárias do país e do exterior.

Paralelamente à mostra editorial haverá palestras e debates, assim como diversas atividades culturais, como exposições, poesias, apresentações teatrais, musicais e outras atividades.

Todos estão convidados!

Data: Domingo – 04 de novembro de 2012

Horário: das 10h às 20h

Local: Auditório Paulinho Nogueira no Parque da Água Branca
Próximo ao metro Barra Funda.

Entrada Gratuita.


Programação: Palestras – Local: Auditório Paulinho Nogueira


11h – Anarquismo na Argentina Hoje (Federação Libertária Argentina / Argentina)


14h – Movimento Anarquista no Chile: história e atualidade (Grupo de Estudios José Domingo Gómez Rojas / Chile)


16h – Lançamento de Livros:


- Pela Educação e Pelo Trabalho e outros escritos – Adelino de Pinho (Biblioteca Terra Livre)

- Geografía social austral: La dinámica del anarquismo en Patagonia y Tierra del Fuego – Maximiliano Astroza-León (Biblioteca Terra Livre / Editorial Eleutério)

- Revista Erosión Nº. 1 (Grupo de Estudios José Domingo Gómez Rojas – Chile)


16h30 – 100 anos da Escola Moderna de São Paulo (Biblioteca Terra Livre)


18h – A Experiência de Organização da Federação Anarquista Francófona (Federation Anarchiste / França)


Debates Livres – Ponto de encontro: Saguão do Auditório Paulinho Nogueira


10h30 – Editoras Anarquistas


15h – Anarquismo e Feminismo


Oficinas


12h – Oficina de Stencil com Coletivo Artficina


Apresentações Artísticas – Local: Coreto


10h – Leitura Dramática: Os Parasitas (Neno Vasco) com participação do Coral Filhos do Povo


14h – Sarau: Sangue, Suor e Poesia Libertária


17h – Show: Tuna (acústico)


Exposições


Cartazes da III Feira Anarquista de São Paulo


Manifestações Estudantis no Chile (FotoArteRevolución/Chile)


Varal de Artistas Libertários


***


Rifa


Durante a Feira será vendida a rifa de um cartaz da CNT por R$2,00 e o vencedor será anunciado as 18h.


Comida


Ao longo do dia haverá comidas e bebidas à venda. (Ativismo ABC)


Dádiva


Um um espaço da dádiva e material anticonsumo (Fenikso Nigra e Barricada Libertária).

domingo, 26 de agosto de 2012

EXISTE POLÍTICA ALÉM DO VOTO!



Já percebeu que votar não resolve os verdadeiros problemas da população? Vem governo, vai governo e a situação permanece igual. Nas eleições, os políticos prometem soluções para todos problemas e pedem nossos votos, mas quando são eleitos esquecem daqueles que o elegeram.
Quantas decisões são tomadas sem a nossa opinião? Mudam as leis, constroem usinas e estádios de futebol, aumentam a passagem do transporte público, gastam milhões com seus salários… Mas nada de mais hospitais, escolas e creches. Não fazem nada em relação às enchentes. A polícia continua oprimindo o povo todos os dias.
Os governantes dizem que são ações para o nosso “bem” e que é o “melhor para a gente”. Mas como podem saber o que queremos se não nos consultam?
Eles não querem saber o que precisamos, queremos e desejamos.
Isso tudo não é novidade para maioria de nós. Enxergar que as coisas não vão bem já é um começo, mas não basta. Devemos ir além! Temos que tomar de volta nossas vidas em nossas próprias mãos!!!
Ninguém mais aguenta essa política que nos impõem. A democracia representativa, esse sistema baseado nas eleições de políticos para cargos de governo, é o que mantém as coisas como estão. O poder está concentrado nas mãos de uma minoria que governa em favor dos ricos e poderosos, ignorando as necessidades e os desejos do povo.
O crescimento econômico é uma farsa, pois somente os grandes empresários se beneficiam com ele. O povo, como sempre, recebe só as migalhas que caem dos bolsos cheios dos donos do capital que são favorecidos por aqueles que detém o poder. E nesse sistema capitalista sempre quando alguém ganha, muitos outros perdem…
É por isso que nos colocamos contra esse sistema político-econômico. Não aceitaremos mais que os políticos decidam por nós! Vamos nos organizar e construir novas formas de viver em sociedade.
Existe política além do voto! Votar de quatro em quatro anos não é fazer política. Existe um outro mundo a ser descoberto. Ele não está tão distante quanto imaginamos. Para vê-lo, basta apenas pararmos de aceitar o que nos impõem e passar a agir para alcançar um horizonte que está além do que estamos acostumados a enxergar.
Para isso propomos fazer política todos os dias, coletivamente, e que as decisões e ações partam de cada um e de todos. Uma política construída diretamente pelas pessoas. Que elas mesmas tenham a possibilidade concreta de defender seus interesses e decidirem sobre o rumo das suas vidas, associando-se com outras pessoas que tenham interesses e vontades em comum. Que as decisões sejam tomadas com todos os indivíduos em pé de igualdade, sem nenhum indivíduo com mais poder do que outro, baseados em uma relação de cooperação e solidariedade.
Propomos, ao invés da democracia representativa e das eleições, uma democracia direta em que as pessoas se organizem para decidir sobre os assuntos nos quais estejam envolvidas, seja no seu bairro, na sua escola, no seu local de trabalho, enfim, em qualquer espaço de convivência. Queremos uma política que seja feita no dia-a-dia, que esteja integrada às nossas vidas. Que não tenhamos mais que escolher um governante. Uma política na qual não precisemos mais votar e nem eleger ninguém! Que sejamos nós mesmos a decidir e agir na organização da sociedade.
Essa proposta política é praticada em diversas partes do mundo e por muitos grupos diferentes. Trabalhadores se reúnem para produzir bens ou prestar serviços sem necessidade de um patrão, em sistema de autogestão. Diferentes grupos de pessoas se organizam em associações de bairros, mantém centros culturais, participam de movimentos sociais, culturais e políticos, assim como de manifestações, protestos, ocupações e ações para denunciar as injustiças cometidas pelo Estado e pelos capitalistas. São pessoas que pela ação direta, sem representantes e sem chefes, decidem e atuam na política e na economia de nossa sociedade. Esses grupos se comunicam e se coordenam, combinando ações, criando laços de apoio e ações conjuntas, mas cada um com sua autonomia, organizando-se sem hierarquias e sem um grupo dirigente ou governante, associando-se num sistema que chamamos de federalismo.
Acreditamos que só assim construiremos uma sociedade livre, justa e igualitária.
Façamos nós mesmos a nossa história! Existe política além do voto!
http://www.alemdovoto.org/

A Outra Campanha



A Outra Campanha é uma articulação aberta aos grupos, movimentos e companheiros interessados em construir uma outra forma de fazer política, com base no protagonismo e na luta popular. É na luta que se cria o poder popular, que fazemos valer nossos direitos e arrancamos das elites políticas e econômicas as conquistas. A Outra Campanha Brasil é inspirada em La Otra Campaña organizada pelos zapatistas e espalhada pelo mundo.

http://outracampanhabrasil.blogspot.com.br/

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

GUERRA CIVIL E AUTOGESTÃO: a revolução espanhola 1



                                                                                                                                  


A Guerra Civil Espanhola se iniciou em 1936 e se desenvolveu num contexto de pré- Segunda Guerra Mundial. Com isso, quase todos os elementos nela envolvidos também foram observados no conflito mundial. Houve uma luta contra o fascismo2, luta esta que tinha um caráter internacional, e é por isso que a Espanha acabou sendo o destino de muitos militantes antifascistas de todo o mundo, inclusive de brasileiros. Além desta luta antifascista, a Revolução Social também estava presente, como observa Hobsbawn:

[...] não foi por acaso que a política interna desse país notoriamente anômalo e auto-suficiente se tornou o símbolo de uma luta global na década de 30. Suscitou os principais problemas políticos da época: de um lado, democracia e revolução social, [...] do outro, um campo singularmente rígido de contrarevolução ou reação, inspirado por uma Igreja Católica que rejeitava tudo o que acontecera no mundo desde Martinho Lutero. (HOBSBAWN, 1995, p.158)

Assim, como escreveu Gaétano Manfrédonia:

A guerra da Espanha não poderia, em nenhum caso, ser apreendida como uma luta a favor ou contra o fascismo, senão como a última tentativa para o proletariado revolucionário de opor-se à reação, realizando a revolução social. (MANFRÉDONIA, 2002, p.27)

As origens da Revolução Espanhola estão intimamente ligadas às origens do anarquismo espanhol, que data das influências de Proudhon e Bakunin, no século XIX, e foi aumentada com os embates entre Bakunin e Marx no seio da Primeira Internacional. No Congresso da Basiléia, por exemplo, em 1869, havia dois delegados espanhóis que tomaram o partido de Bakunin. A partir da década de 1880, os escritos de Kropotkin também começaram a chegar à Espanha e contribuíram muito para o desenvolvimento dos ideais libertários neste país. A influência de Kropotkin se fez sentir principalmente nas zonas rurais, enquanto a de Bakunin foi sentida nas áreas urbanas.
Outro fator que contribuiu para a Revolução Espanhola e para o predomínio das idéias libertárias foi a fundação de uma central sindical de orientação anarcossindicalista, a Confederação Nacional do Trabalho – CNT –, criada em outubro de 1910. Quando se iniciou a Revolução a CNT tinha uma extraordinária influência sobre o movimento operário, principalmente na região da Catalunha, e em especial em Barcelona, como sugere Pierre Vilar ao dizer que: [...] ela [a CNT] pode, com uma ordem, paralisar Barcelona. E toda mobilização política nessa cidade (como em outubro de 19343), organizada sem ela ou contra ela, caminha para o fracasso. (VILAR, 1989, p.15)
A CNT adquiriu uma importância singular no processo revolucionário, desempenhando, porém, um papel dúbio: ao mesmo tempo em que ela impulsionava os processos de coletivização, ela também ajudou a freá-los na medida em que a guerra se tornava mais importante do que a própria Revolução. Como disse Daniel Guérin:

[...] à medida que o Estado se reforçava e o caráter totalitário da guerra se agravava, a contradição entre uma república burguesa beligerante e uma experiência de comunismo ou, mais genèricamente, de coletivismo libertário, tornava-se mais acentuada. Finalmente, a autogestão teve que bater em retirada, sacrificada no altar do “antifascismo”. (GUÉRIN, 1968, p.138-39)

A Revolução foi catalisada pela tentativa de golpe fascista, como observou muito bem Pierre Broué ao dizer que “A iniciativa da contra-revolução desencadeou a Revolução”  (BROUÉ, 1992, p. 77). Talvez, sem a tentativa de golpe, a Revolução não tivesse ocorrido, ou demorasse um tempo maior para eclodir.
Nessa luta pelo controle direto dos meios de produção pelos produtores é que Diego Abad de Santillán escreveu seus estudos econômicos sobre as possibilidades reais de gestão direta da economia espanhola nos moldes de uma sociedade libertária. Muitas de suas propostas, que consistem basicamente em um esquema de federações começando desde as organizações comarcais e indo até organizações nacionais, foram aprovadas no IV congresso da CNT realizado de 1 a 10 de maio de 1936 sendo que, posteriormente, muitos de seus estudos e propostas acabaram sendo implementados durante a Revolução.
Os processos de coletivização4 na Espanha assumiram uma forma diferente, por exemplo, dos da Revolução Russa. Na Espanha deu-se a chamada “coletivização pela base”, onde os produtores diretos assumem a gestão dos meios de produção. George Orwell descreveu assim a cidade de Barcelona, que era o epicentro da Revolução urbana, quando por lá ele passou, no início da Guerra Civil:

[...] para quem acabava de chegar directamente de Inglaterra o aspecto de Barcelona constituía algo de surpreendente e avassalador. Era a primeira vez que me encontrava numa cidade em que a classe trabalhadora estava no poder. Praticamente todos os edifícios de tamanho apreciável tinham sido tomados pelos trabalhadores e estavam envoltos em bandeiras vermelhas ou ostentavam a bandeira encarnada e negra dos anarquistas; em todas as paredes se viam pintadas a foice e o martelo e as iniciais dos partidos revolucionários; quase todas as igrejas tinham sido esventradas e as suas imagens queimadas. Aqui e ali, brigadas de trabalhadores demoliam sistematicamente igrejas. Não se topava loja nem café que não tivesse uma inscrição dizendo que fora coletivizado – até os engraxadores estavam colectivizados e tinham as suas caixas pintadas de encarnado e preto.(ORWELL, p.8-9)

Os processos de autogestão se que espalharam pela Espanha chegou a tomar conta de aproximadamente 80% do país, segundo Maurício Tragtenberg em seu livro Reflexões Sobre o Socialismo. Porém, os processos de autogestão sofreram um refluxo, tanto pela falta de matériasprimas para a indústria e para as chamadas colectividades rurais5 – com uma grande sabotagem efetuada pelo governo republicano – quanto por derrotas políticas dentro da Espanha e pela política adotada pela URSS em relação à Espanha. A falta de matérias-primas, aliada a uma “má vontade” do governo republicano em ajudar à autogestão e ao intervencionismo estrangeiro, notadamente soviético, dentro do campo “republicano”, causou a decadência dos anarquistas e dos comunistas dissidentes do regime de Moscou, além da ascensão dos comunistas stalinistas. É o que James Joll sugere:

[...] Foi o problema do equipamento e de matérias-primas que, mais do que qualquer outra coisa levou ao declínio os anarquistas. A revolucionária idéia de uma milícia anarquista, abastecida por fábricas anarquistas, inevitavelmente sucumbiu perante a carência geral de matérias básicas; e foi, sem dúvida, o fato de, durante a guerra civil, o governo apenas ter conseguido obter fornecimento da União Soviética que mais largamente contribuiu para a crescente influência dos comunistas e para o eclipse e a supressão dos seus rivais. (JOLL, 1977, p.309)

Assim, tanto o predomínio político dos anarquistas quanto os processos de autogestão entraram em declínio, em favor das ideias do comunismo advindo de Moscou. Pode-se colocar como o símbolo dessa decadência os combates de maio de 1937 na cidade de Barcelona, onde anarquistas e militantes do POUM6 enfrentaram os comunistas com armas pelo controle da central telefônica da cidade, que desde o início da Revolução fora coletivizada e estava nas mãos dos anarquistas, e os comunistas, através do governo, tentaram reavê-la a força. Essa oposição entre anarquistas e comunistas era assunto em jornais e revistas libertárias da época, como por exemplo, na revista Mujeres Libres, que em seu 7° número diz:

Há três meses, o PSUC7, de acordo com o Partido Comunista Espanhol, lança duas palavras de ordem com uma surpreendente insistência. A primeira, “Ganhar a Guerra”; a segunda “lutamos por uma República democrática”, pois bem sabem os camaradas do PSUC que, com efeito, uma vez terminada a guerra, teriam de lutar por esta República democrática, porque há um milhão de homens na Catalunha e outro milhão no resto da Espanha, que não admitiriam esta República democrática. (Mujeres Libres nº 7 in RAGO; BIAJOLI, 2007, p.57)

O que estava em disputa, porém, não eram apenas as ideologias antagônicas, e sim a expansão ou o refluxo dos processos autogestionários, pois o PC – que era de orientação stalinista – era contrário à autogestão, preferindo o modelo burocrático da URSS. Na prática, o PCE8 estava contra a Revolução, pois esta estava ficando fora do controle da URSS e por causa das relações externas desta, que procurava uma aliança com os países ocidentais para poder enfrentar Hitler – mais tarde acabou saindo um acordo com o próprio Hitler. Assim, eles colaboraram com os interesses dos países ocidentais em detrimento da Revolução e, principalmente, da autogestão, como observou Orwell:

[...] Na realidade, foram os comunistas, mais do que quaisquer outros, que impediram a revolução em Espanha. Mais tarde, quando as forças direitistas obtiveram o controlo absoluto, os comunistas mostraram-se dispostos a ir muito mais longe do que os liberais na perseguição dos líderes revolucionários. (ORWELL, p.71-72)

Esta pesquisa visa mostrar como se desenvolveram os processos de autogestão e como eles se deram na prática, além de apreender os fatores de sua derrota. Além disso, ela busca mostrar a atuação da maior central sindical anarquista de todos os tempos, a Confederação Nacional do Trabalho – CNT –, mostrando suas práticas e suas contradições no processo revolucionário espanhol, verificando o impacto de suas atitudes na expansão e na retração da autogestão. A pesquisa também procura entender como os comunistas seguidores de Stálin contribuíram para a derrota da autogestão de forma deliberada e consciente, e que agiam de forma a defender os interesses soviéticos dentro da Espanha e fora dela. Assim, analisando o caso espanhol, podemos ver como se dava a política da Terceira Internacional no âmbito externo à URSS, cujos princípios eram baseados na defesa do regime de Moscou a qualquercusto.
Para o desenvolvimento da pesquisa são utilizados como fontes alguns jornais publicados na Espanha durante os acontecimentos, como o Tierra y Libertad, Solidaridad Obrera, os Boletín de Información de la CNT-FAI e uma seleção de documentos do grupo feminista Mujeres Libres realizados por Margareth Rago e Maria Clara Pivato Biajoli, cuja publicação recebeu o nome de Mujeres Libres da Espanha: Documentos da Revolução Espanhola. Tais jornais são essenciais para a compreensão dos processos de autogestão nas empresas, pois eles estavam entre os promotores ideológicos da autogestão. No entanto, é preciso ser cauteloso ao analisá-los, pois eles estão carregados de ideologia e de “presenteísmo”. Além dos jornais existem também algumas obras essenciais para se analisar a autogestão, tanto teoricamente quanto na prática, como o já citado livro escrito por Diego Abad de Santillán poucos meses antes do início da Guerra Civil e da Revolução, intitulado O Organismo Econômico da Revolução, cuja intenção era dar bases teóricas a uma possível economia autogerida, e que foi em grande parte usado como modelo para a autogestão que se desenvolveu após julho de 1939.
Além destas obras, existem autores que, de uma forma ou de outra, produziram estudos e/ou relatos sobre o conflito espanhol sobre a autogestão em empresas ou mesmo não campo de batalha. Também existem estudos, como o de Carlos José Márquez, em Como se há Escrito la Guerra Civil Española, que são essenciais para uma discussão sobre a historiografia e sobre as memórias produzidas sobre a Guerra Civil, ainda mais quando muitos mitos foram e ainda são criados em torno do conflito, seja pela direita, seja pela esquerda. Outros autores importantes são os que de alguma forma participaram dos acontecimentos ou estiveram envolvidos no conflito, como José Peirats, Daniel Guérin, George Orwell, Frank Mintz, entre outros.
Conclusivamente, a pesquisa tem caminhado no sentido de demonstrar as contradições do próprio movimento libertário, e que nem sempre andava junto com os processos de autogestão. Além disso, divisões internas relacionadas às ideologias – pois não eram apenas os anarquistas que impulsionaram a autogestão – e a própria prática autogestionária deram o tom das disputas no campo “republicano”. Na verdade, o que estava se desenvolvendo era uma luta entre autogestão e heterogestão. Também, é preciso ter em conta a influência que o conflito militar acabou exercendo sobre os processos autogestionários. Inicialmente a luta foi levada a cabo pelas milícias, e aos poucos estas foram sendo substituídas por unidades militares convencionais, com comandos e estrutura militarizados e centralizados. Isso significava a introdução da heterogestão na luta militar contra os franquistas. Ao mesmo tempo, as milícias possuíam poucas armas e estas eram fornecidas, principalmente, pela URSS. No entanto, estas forneciam armas sob certas condições, e elas acabavam indo parar nas mãos do que Carlos José Márquez chamou de “Partido da Ordem”, ou seja, no grupo político que lutava pela manutenção da ordem republicana, ou seja, pelo PCE e seus aliados republicanos. Este “Partido da Ordem” priorizava a luta antifascista – ou seja, o conflito militar – sobre o processo revolucionário. Seu lema era: “Primeiro ganhar a guerra, depois fazer a revolução”. Dessa maneira, podemos observar como os processos autogestionários não estavam separados das disputas político-ideológicas que ocorria dentro do campo republicano e, ao contrário, as modificações políticas que ocorriam no capo “republicano”, de uma forma ou de outra, acabava por incidir na própria prática autogestionária ou na sua expansão ou retração.

Igor Pomini Pasquini  é graduado em História pela UNESP; mestrando em História pela UFU e membro do Coletivo Mundo Ácrata.

Notas:
1 Artigo originalmente publicado nos "Anais do VII Simpósio Nacional Estado e Poder" (Uberlândia, UFU, 20 a 22 de agosto de 2012)
2 O termo fascismo é questionável ao se aplicar aos militares espanhóis, mas aqui ele é usado porque o autor no qual está referindo o utiliza.
3 Em outubro de 1934 houve levantes em várias partes da Espanha, obrigando o governo a decretar estado de sítio. Os militantes da CNT participaram ativamente desses levantes, juntamente com os comunistas, socialistas e outros.
4 A autogestão era geralmente chamada de coletivização, numa tentativa de se diferenciar da nacionalização.
5Estas colectividades, como ficaram conhecidas, eram organizações camponesas que funcionavam como unidades de produção independentes, ao estilo de uma Comuna.
6 Partido Operário de Unificação Marxista. Era um partido cujo propósito era reunir todos os comunistas dissidentes do regime de Moscou. Muitas vezes o POUM é erroneamente classificado como trotskista, pois seus fundadores, Andres Nin e Joaquin Maurín, eram ex-trotskistas.
7 Partido Socialista Unificado da Catalunha. Era um partido catalão alinhado a Moscou e a principal alavanca stalinista na Catalunha.
8 Partido Comunista da Espanha. Era o partido comunista oficial, stalinista e filiado à III Internacional.


Referências Bibliográficas
BROUÉ, Pierre. A Revolução Espanhola 1931-1939. São Paulo: Perspectiva, 1992.
GUÉRIN, Daniel. O Anarquismo: da Doutrina a Ação. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.
HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Cia das Letras, 1995.
JOLL, James. Anarquistas e Anarquismo. Lisboa: Dom Quixote, 1977.
LEVAL, Gaston; BERTHIER, René; MINTZ, Frank. Autogestão e Anarquismo. São Paulo: Imaginário, 2002.
MÁRQUEZ, Carlos José. Como se ha Escrito la Guerra Civil Española. Madrid: Ediciones Lengua de Trapo, 2006.
MANFRÉDONIA, Gaétano at al. Espanha Libertária: A Revolução Social Contra o Fascismo. São Paulo: Imaginário, 2002.
ORWELL, George. Homenagem à Catalunha. Lisboa: Livros do Brasil.
RAGO, Margareth; BIAJOLI, Maria Clara Pivato. Mujeres Libres da Espanha: Documentos da Revolução Espanhola. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.
SANTILLÁN, Diego Abad de. Organismo Econômico da Revolução: A Autogestão na Revolução Espanhola. São Paulo: Brasiliense, 1980.
TRAGTENBERG, Maurício. Reflexões Sobre o Socialismo. São Paulo: Editora Moderna, 1986.
VILAR, Pierre. A Guerra da Espanha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
WOODCOCK, George. História das Idéias e Movimentos Anarquistas (2vol.). Porto
Alegre: L&pm, 2002.